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O Filho do Homem

Quarta, 6 de Junho de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

    Sua mãe era uma devota, tímida e retraída, como a maioria das mães daquela época; Freqüentava a paróquia de Santo Afonso Rodrigues, na outrora pequena cidade de Bagé, no extremo Sul do Rio Grande. O pai, dono de grande fábrica que confeccionava botões de metal para a indústria têxtil, era importante empresário, muito conhecido e respeitado na cidade. Ainda jovem, o casal foi abençoado com um filho mirradinho a quem decidiu batizar de Jesuado, em homenagem ao ídolo maior, o grande filho de Deus entre os homens. O pai era muito ocupado e ausente das obrigações da igreja, tanto que, como se pedisse perdão pelos pecados, concordou com o nome escolhido pela esposa beata.
E assim, Jesuado foi atirado ao mundo já como motivo de chacota entre as enfermeiras, que soltavam os sorrisos sarcásticos umas às outras ao perguntar sobre o tal Jesuado, incluindo uma piada que, de tanto ser repetida, tornou-se típica da cidade: _Você conhece o Jesus Zoado? O herdeiro dos botões? É, é o filho do homem, tchê!”.
Enfim, Jesuado cresceu sofrendo os estigmas da vida, carregando a cruz que lhe foi confiada desde o batismo e sofrendo pelos homens em sua missão de salvação. Na escola, os garotos tiravam onda com o magricela já na chamada:
_Jesuado? – Chamava a professora.
_Presente. – Respondia ele tímido e com a cabeça baixa, já preparado para os comentários que se seguiam:
_Hahahahaha. Ai se Jesus ouve...
_Mas Báh, Ele sabe que foi zoado!
_Hahahaha. É claro que Jesuado está presente, ele está em TODO lugar!
_Mas cuidado, Ele é o filho do homem, tchê! Hahahaha...
É impressionante como as crianças do primário podem ser más. Mas Jesuado era muito amado em casa e fazia questão de carregar uma grande serenidade e calma com maestria rara. Ele timidamente murmurava para si mesmo, como que se aceitasse a brincadeira: _Perdoai-vos, oh pai, eles não sabem o que fazem...
E seguia pela rua e pelos comércios da pré-adolescência recebendo as piadas, já sem se importar com elas. Caminhava todo dia até a fábrica de seu pai, onde ia aprender as lições da vida adulta e, num belo dia, como fato comum entre os humanos mortais na Terra, foi necessário que tomasse o lugar de seu pai na fábrica, que há muito se transformara em ícone do estado, com milhares de funcionários e exportações estrangeiras. Foi então que os problemas de fato apareceram, ao ter de lidar com os magnatas da indústria têxtil, e toda aquela calma aparente de Jesuado deu lugar a uma grande ira. Crescido na criação gaúcha, cheia de imponências, orgulho e razões, começou a se irritar em demasia com os poderosos que, em bobas piadas de vendas, insistiam em lhe zombar o nome. E agüentar os desaforos dos ricaços impiedosos já era demais. Diferentemente das besteiras infantis, os grandes empresários eram maliciosos e estavam atrapalhando os negócios da família.
_O Senhor Jesuado está?
_Sim, quem gostaria de falar-lhe?
_Aqui é Judas, avise-o que Pedro, Paulo e André estão aguardando para a ceia.
E a ligação caía.
Ou outros mais ousados diziam:
_Alô, Jesuado? Eu gostaria de fazer uma encomenda.
_Claro, de quantos botões tu precisas? _ Perguntava inocentemente.
_Botões? Não, você não é o filho do homem? Eu preciso é de milagre, mas não pode ser do zoado, só do Jesus. – E desliagava em gargalhadas. Na verdade eram todas as piadas sem a menor graça.
Tanto aborreceu-se, que um dia resolveu acabar com toda aquela palhaçada, encheu o peito de coragem, pediu todo perdão do mundo a sua mãe, arregaçou as mangas em ódio mortal e trocou de nome. Nem Yeshua, nem Nazareno, Messias ou mesmo Cristo, Jesuado agora era Jesus, simples e totalmente, onipotente.
Trocou também seu posto, indo cuidar de sua verdadeira vocação, ajudar os homens, cedendo a presidência da empresa para seu irmão menor, Jeová, que tinha muito mais talento para lidar com as falsidades do mercado e com as piadas dos magnatas. Com harmonia e talento conjuntos, Jeová e Jesus, uma dupla de peso na presidência e no suporte ao cliente, atraíram mais lucros e sucessos para a companhia de botões do que podiam imaginar.
E ainda hoje, quem quer que entre em contato com a central de atendimentos especializados da Fábrica de Botões São Paulo de Tarso de Bagé Ltda., pedindo informações urgentes para assuntos que ninguém conseguira solucionar, encontrará a sabedoria plena para todas as suas questões nas palavras tenras de Jesus, o filho do homem, que nunca mais fora zoado por ninguém, ao contrário, sempre elogiado com palavras que frequentemente se repetiam, contribuindo para o crescimento infindável dos bons negócios em botões:
_Mas báh! E não é que só Jesus salva, mesmo?!


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