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O Fenômeno FalouSexta, 2 de Maio de 2008* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Se você é mais ou menos da minha idade, região e nível sócio-econômico, certamente usa a expressão “falou”. Na verdade, você usa a expressão, independente de qual seja sua idade, região ou nível sócio-econômico. Perfeita para encerrar conversas casuais, a gíria é realmente abrangente. Tanto que as pessoas passaram a utilizá-la não apenas para encerrar conversas casuais. O que faz, cada vez mais, reuniões de negócios e primeiros encontros terminarem como uma conversa pós-futebol.Mais que uma expressão, o “falou” é um fenômeno. Simboliza que a informalidade característica de nosso país chegou a níveis inimagináveis mesmo pelo primeiro português a trocar as vestes pré-coloniais por uma singela sunga. Chegou à Blockbuster. Talvez você não se lembre, mas a rede de locadoras de vídeo – talvez você também não se lembre que as pessoas alugavam “vídeos” – especializada em sucessos de bilheteria nem sempre existiu em nossas plagas. Quando chegou, seus principais diferenciais eram a grande quantidade de cópias do mesmo titulo e, principalmente, a excessiva educação de seus funcionários. Uma cordialidade exagerada, de sorrisos forçados e simpatia impossível, recheada de “obrigado”, “volte sempre” e “posso ajudá-lo?”. Enchia o saco, incomodava, mas, com o tempo, nos acostumamos. Tornou-se um esteio. Sabíamos que, nesse mundo cão, quando sentíssemos falta de um pouco de polidez, poderíamos sempre recorrer aos balconistas da Blockbuster e ao seu impecável treinamento. Bons garotos. Outro dia, no entanto, ao sair de uma das lojas da rede americana (que, comprada pelas Americanas, já não é tão americana assim), recebi do atendente a sacola com os DVDs – como os vídeos são chamados atualmente – e agradeci a ele. O sujeito, em contrapartida e para o meu espanto, respondeu: “Falou.” Muito mais do que os aviões que colidiram no World Trade Center, aquilo simbolizou, para mim, a derrocada da civilização ocidental. Se nem o pessoal da Blockbuster é educado, quem será? Vindo de alguém que trabalha na Blockbuster, é mais chocante, porém o “fenômeno falou” não se restringe às lojas da cadeia e nem à expressão em si. Representa uma nova (falta de) orientação no tratamento entre prestadores de serviço e clientes, entre pessoas em geral. Hoje, é cada vez mais raro receber um “muito obrigado”, um “volte sempre” ou um “posso ajudá-lo?” – se bem que esse último eu até dispenso, já que, quando me perguntam isso, quase sempre tenho que me sair com o clássico “só estou olhando”. Recepcionistas de cara-amarrada raramente me dirigem um “bom dia”, parecendo que dormiram comigo – e, como a beleza também não é mais um requisito para o cargo, raramente desejo que isso tenho de fato acontecido. Manobristas de estacionamento rosnam quando ergo o polegar em direção a eles e, por pouco, não o arrancam fora à mordida. Não pense que esse modus operandi se restringe a subalternos mal-educados. Faça uma retrospectiva mental e, provavelmente, constatará que, menos e menos, tem usado “bom dia” ou “obrigado”, por exemplo. Ponha a culpa disso na correria do dia-a-dia se preferir. Eu atribuo ao “fenômeno falou”. A famosa informalidade brasileira é a brecha que muitos procuram para dispensar os modos. Sim, porque, atualmente, a boa educação se confunde com a formalidade. Em certo tempo, de tão incomuns, expressões como “por favor” e “obrigado” farão companhia a outras como “vossa excelência” na norma culta das relações. Será tudo “falou”. E, em mais um pouco, até o “falou” terá desaparecido. Aí, rosnaremos como os manobristas ignorantes, então lembrados como uma espécie de elo perdido.
Aquela coisa toda por
Leandro Leal | Tá esperando o que pra descer o pau?
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