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O esporte mais praticado do mundoSexta, 23 de Fevereiro de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Falar mal dos americanos é fácil. Mais que isso: é tentador. Com as sucessivas lambanças políticas, bélicas, ecológicas e culturais, quem resiste a descer a lenha neles? Por isso, criticar o povo dos Estados Unidos é como o futebol: um esporte praticado em todo o mundo e que até lá está ganhando adeptos.Contribui para a popularidade da atividade o fato de estar, tal como o que eles chamam de soccer, ao alcance de todos. A bola de meia usada nas periferias encontra paralelo em lugares-comuns e informações vagas que qualquer um conhece. Você não precisa fazer idéia do que seja o Protocolo de Kyoto para culpar os sobrinhos do Tio Sam pela proximidade do fim do mundo. Todo mundo já ouviu, de fonte confiável, que os livros didáticos norte-americanos apontam a Amazônia como seu território. Mesmo quem não imagina quem seja o presidente estadunidense odeia o dito cujo. Outros, que sabem exatamente de quem se trata, fazem coisas como a que vi mais cedo na TV: de máscara do Bush, um sujeito andava de quatro pelas ruas de uma metrópole com um cartaz “kick me” colado no traseiro. (Dizia-se “artista plástico em instalação”. Tá bom. Mas essas aspas são assunto para outro texto.) Então, imagine-se no meu lugar. Você tem uma coluna destinada à critica pura e simples, está sem inspiração para escolher o tema da semana. Olhando para o lado, você lê o aviso: “em caso de emergência, quebre o vidro e meta o pau nos porcos imperialistas”. Com munição recém-adquirida – como quase 100% da munição, fornecida pelos próprios – não atacar a América seria desperdício. E se Afeganistão e Iraque usaram contra os EUA as armas que eles lhes deram, por que não eu? A munição em questão são dois filmes vistos por mim esses dias. Saídos de Hollywood, “Turistas” e “Borat”, ratificam, cada um a seu modo, a babaquice dos vizinhos do Canadá. Valendo-se da mesma estratégia de afegãos e iraquianos (e, agora, minha), Borat é um repórter de mentirinha do Cazaquistão que produz um documentário idem sobre os costumes americanos. Sem saber se tratar de uma comédia, as pessoas filmadas se comportam de modo natural – preconceituoso e tacanho. Só não digo que seria engraçado se não fosse trágico porque é hilário mesmo assim. “Turistas”, como você já deve saber, mostra as desventuras de um grupo de estrangeiros tentando escapar de uma quadrilha de ladrões de órgãos no Brasil. Mostra também uma inacreditável seqüência de clichês e mitos sobre nosso país. Estão todos lá: gente (e não são meninos de rua) cheirando cola, mulheres gostosas e fáceis, caipirinhas e – apesar das tentativas de passar a mão no rim alheio – um povo servil e acolhedor. Por que eu paguei ingresso para assistir essa bomba? Simples: para furar o boicote sugerido pelos “cidadãos brasileiros ultrajados” por essa produçãozinha de quinta. E também porque eu adoro produçõezinhas de quinta. Mesmo fã de porcarias, “Turistas” foi demais até para mim. Depois do que talvez tenha sido o pior filme da minha vida, precisava de algo realmente bom. Mais do que de projeção, a próxima sala teria que ser de desintoxicação. Pelo que tinha ouvido a respeito, “Pecados Íntimos” surtiria esse efeito. E surtiu. O filme me fez recuperar a fé nos americanos. E não foi pelo roteiro, de uma simplicidade complexa, nem pelas atuações, impressionantes mas sem exageros, tampouco pela direção, se não excelente, mais que correta. O que me fez dar uma segunda chance aos estadunidenses foi uma atriz. Um povo que gerou a Jennifer Connelly não pode ser tão ruim assim.
Aquela coisa toda por
Leandro Leal | 22 descendo o pau
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