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O enduro da vidaSábado, 2 de Fevereiro de 2008* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Nesse momento é dada uma bandeirada. Então, o motorista desce do carro e levanta um troféu... Escutei e difundi essa mentira diversas vezes na infância. Não sei se era para contar vantagem, ou pura fantasia infantil. Mas o fato é que a criançada espalhava aos quatro ventos essa falsa conjectura.Era nos tempos idos da década de 80. Assim como grande parte da garotada, quase todos os dias eu passava horas jogando Enduro – o jogo mais legal do Atari (o melhor videogame de todos os tempos). Hoje em dia, não gosto de nenhum desses novos videogames. Eles imitam tanto a realidade que me trazem a ela. Fica tudo muito evidente, repetitivo e chato. É um contra-senso. Ao buscarem a perfeição, fazendo cópias da vida e de situações, os videogames atuais revelam todas as nossas neuroses e imperfeições. E as legitimam. Estando tudo ali disposto em alta definição, não sobra espaço para criar, imaginar e idealizar. Ajudam a formar uma sociedade resignada. Mas, deixa pra lá, vou falar do Enduro. Recentemente, me peguei pensando muito nesse jogo. Era cativante. E hoje eu acho que entendo o porquê. Para quem não é dessa época: trata-se de uma simples corrida de carrinhos, em que a cada etapa as dificuldades vão aumentando, enquanto o tempo para executá-las vai diminuindo. O jogo tinha várias fases, em terrenos acidentados: uma à luz do dia, outra durante a noite, outra no gelo, e até mesmo neblina era preciso enfrentar. Cada fase tinha sua beleza, seus atalhos e suas aperturas. Cativava, talvez, porque a vida seja cativante. O Enduro nada mais era, para mim, do que uma metáfora da vida. Não uma tentativa de cópia, mas uma alusão subliminar e, quem sabe, despretensiosa. Na época, eu nem percebia isso, mas acredito que de alguma forma sentia. Cada obstáculo contornado representava uma vitória, cada batida um aprendizado, cada dia finalizado uma motivação para enfrentar o próximo. E a referência à vida ia além. O jogo não tinha fim. Ou melhor, a trajetória acabava quando o piloto não conseguia executar a prova. Simplesmente terminava, sem mais nem menos. Morria. E a cada etapa, tudo ia ficando mais difícil e trabalhoso. Dessa forma, era possível sentir o fim se avizinhando. Ao mesmo tempo em que os obstáculos exigiam cautela, o tempo encurtava e reclamava presteza. Correr aquela prova era uma arte perigosa e sedutora. É curioso pensar que quando estávamos jogando melhor, encontrávamo-nos, inevitavelmente, mais perto do fim. Lembro que, numa vez, cheguei a correr mais de 50 etapas seguidas sem “morrer”. Muito mais do que a maioria dos meus amigos conseguia. Um recorde. E em nenhum momento atingi a tal consagração. Momentos gratificantes de alegrias foram muitos, mas não houve uma cerimônia de entrega de troféus pelo bom serviço prestado. É assim que tinha de ser. Entretanto, da mesma forma que na vida, como todo mundo vira santo depois da morte, às vezes, na empolgação, eu mesmo vislumbrava um término mais glorioso. Com a inocência pueril, eu ajudava a propagar a mentira de que o piloto descia do carrinho, recebia a taça e era ovacionado pelo público. |