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O desgraçado ideal

Sábado, 3 de Março de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Confesso que fiquei irritado ao ouvir que eu era o tipo de desgraçado que ele mais gostava. Mas ele soltou a frase com tanta espontaneidade que, em alguns segundos, eu relevei. Pior: em pouco tempo, eu mesmo estava me achando o melhor tipo de desgraçado naquelas circunstâncias.

Percebi que a minha infelicidade era pequena inclusive perto da dele. Não verbalizei o pensamento, mas entendi que é possível mensurar pessoas em infinitas categorias, até mesmo em quão desgraçada ela é ou deixa de ser. E, para mim, talvez ele fosse o tipo de desgraçado que eu menos gostava, apesar de que naquele instante eu precisava dele mais do que de qualquer outra pessoa.

Após três horas vagando a pé pela rodovia Régis Bitencourt, mais precisamente nas proximidades da entrada do município de Barra do Turvo, foi que ele apareceu oferecendo ajuda. A apresentação foi bem estranha:

- Prazer, eu sou o Evandro – Disse ele.
- Fala aí, eu sou o Rogério.
- Rogério? Eu também.
- Como assim?
- Também sou Rogério.
- Você não disse Evandro?
- É, também.
- É Evandro Rogério?

A pergunta ficou sem resposta. Ele apenas me olhou com uma expressão enigmática, que eu não consegui definir se era de confirmação ou reprovação. Entretanto, para mim isso não era importante naquele momento, eu só queria que ele tirasse o meu carro do meio do matagal e me levasse até o posto de gasolina mais próximo, que estava a 15 quilômetros de distância.

Eu havia comprado aquele carro há apenas dois dias. O vendedor informou que o marcador de combustível estava desregulado. Disse que quando o painel apontasse ¼ do tanque era hora de procurar abastecer. Só que o visor ainda indicava mais de meio tanque quando senti o carro ratear. Estava sozinho, num lugar onde o telefone celular não pega, num trecho de serra, sem nenhuma casa ou comércio nas proximidades.

Desconfiei imediatamente do combustível, mas também poderia ser alguma pane elétrica, hidráulica, ou qualquer outra que o Rubens Barrichello já tenha sido vítima. Tentei prosseguir mais alguns metros na esperança de encontrar um estabelecimento, mas o carro começou a parar. Não tinha acostamento por lá e havia curvas fechadas para todos os lados. Por isso, encostei o veículo no meio do mato para evitar acidentes.

Encontrei um mecânico cerca de dois quilômetros de distância de onde eu havia parado. Ele caminhou comigo e tentou examinar o automóvel, mas a quantidade de mato dificultava. Eu disse que achava que era gasolina e após alguns testes ele também achou provável. Ele indicou que eu caminhasse cerca de trinta minutos até uma igreja, onde o pastor poderia vender um pouco de gasolina do carro dele. Enquanto isso, ele tomaria conta do meu carro para que a polícia não multasse ou guinchasse. O preço da vigia: R$ 30,00. Achei razoável e me despedi.

Meia hora depois, achei a igreja. A mulher do pastor pediu R$ 10,00 pelo último litro de gasolina que tinha para me entregar. Disse que o carro da família estava com o tanque seco e que, por acaso, ainda tinha aquele litro de combustível guardado numa garrafa plástica de refrigerante. Só que para vender, ela precisaria consultar o pastor, que estava na roça ali perto. Aguardei, comprei e voltei.

Colocamos a gasolina e o carro não pegou. Chacoalhamos o veículo uma porção de vezes para tentar fazer o combustível deslizar até o motor, mas foi em vão. O mecânico comunicou que não teria jeito de fazer pegar e que, infelizmente, ele precisava ir embora naquele momento. Orientou-me a esperar um guincho, ali mesmo na beira da estrada.

Evandro ou Rogério foi quem me socorreu. Disse que guincharia meu carro até a oficina dele, cinco quilômetros para frente. Depois, me levaria até o posto e me traria de volta até o carro. Se não fosse combustível o problema, consertaria o veículo. Insistia em não falar o preço do serviço que seria prestado. Ficava naquele papo de: “não se preocupa com isso agora não, depois a gente vê...”. Mas, diante da minha resistência, falou que seria 200 pilas o frete. Isso, se não precisasse consertar.

Achei o valor muito alto e disse que ia esperar outro guincho. Após a negociação, ele aceitou fazer pela metade do preço, mas somente porque eu era o tipo de desgraçado que ele mais gostava.

- Sabe como é, né? Guincheiro vive da desgraça dos outros. – Ele puxou assunto.
- Imagino...
- Só numa curva que tem aí na frente, quando chove, são 10 carros em média capotados.
- Caraca, em média por dia de chuva?
- Em média por chuva. Se chover o dia inteiro dá bem mais.
- Que absurdo.
- Pois é, e eu não gosto de guinchar carro de acidentado não, mas é o que mais faço na vida. Por isso, quando encontro uns negos assim que nem você, sem combustível ou quebrado, fico muito feliz.
- Que bom.
- É verdade, só fiz esse preço porque você é um tipo de desgraçado que eu gosto. Mas mudando de assunto, ta vendo isso aqui? – Ele levantou a camiseta e mostrou uma marca no peito.
- Vi.
- Acabei de pegar uma pretinha lá em Barra do Turvo e a louca me mordeu. Se a minha mulher pedir pra eu tirar a camisa hoje eu to ferrado.
- É verdade, as mulheres são ciumentas.
- A minha então... – Ele comentou.

Por coincidência do destino e para o grande espanto dele, no posto de gasolina encontramos sua mulher e o seu filhinho, que me foi apresentado como Rogerinho. Após uma ligeira briga de casal, que eu não entendi bem o porquê, ele me informou que a família voltaria de carona conosco até a oficina.

Durante o trajeto, me fazia sinais o tempo todo, com uma fisionomia que eu interpretei como de preocupação, provavelmente por causa da história da pretinha e da mordida. Acho que ele queria pedir para eu não comentar nada de jeito nenhum.

Meu silêncio durante o caminho foi bem avaliado. O guincheiro tentou até me oferecer uma cervejinha na oficina. Após fazer meu carro pegar, disse adeus e fez questão de me dar um forte abraço. Fui embora em seguida e, apesar das três horas de atraso na viagem, estava feliz. Feliz pelo fato do carro estar funcionando e, principalmente, por ser um tipo de desgraçado ideal, que sabe inclusive guardar segredos. 
    

vem que é bão com a Rogéria | 7 vieram