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O Cocô do Michael Douglas

Segunda, 5 de Maio de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Todo mundo que gosta de passar por intelectual gosta de dizer que não gosta de Róliúdi. Mas se alguém conseguiu passar a vida sem assistir a Sharon Stone em "Instinto Selvagem": parabéns, você é um autêntico intelectual ou um verdadeiro eremita.

Mais do que a famosa cena da cruzada de pernas sem calcinha, me interessa um momento em que o mocinho de Michael Douglas tenta provar sua saúde mental através de um mui ponderado discurso aos gritos cujo clímax é a seguinte frase: "Eu nunca olhei para o vaso antes de dar a descarga!" - como se com isso estivesse provado que ele era normal (Detectado: típica frase de efeito que o roteirista deve ter se achado um gênio).

Logo imagino as pessoas que vêem no galã um modelo e que, antes do filme, costumavam, como todo ser normal, admirar, repletas de orgulho, sua obra privada - quando não chamar a mãe, irmã ou até a esposa/o. Que duro golpe para estes humildes seguidores se verem obrigados a tão brutal mudança de hábito!

De minha parte continuei olhando discretamente, admito, meio de soslaio. Com o tempo, comecei a me achar um marginal, um louco por manter sigilosamente o costume. Refleti profundamente sobre o quanto eu havia aprendido sobre mim mesmo durante tantos anos olhando para o vaso antes de dar a descarga; pensei se minha personalidade toda, baseada nestas observações, estaria em cheque. Foi quando sonhei que comia a Sharon Stone e recusava a Madonna no mesmo sonho, o que me causou mais perturbação ainda - por que não havia comido as duas? Repassei traumas de infância, dilemas existenciais, desilusões amorosas, para no final de alguns meses, não avançar nada. Niente. Nichts. Deixei a história repousar escondida que nem aquele cocozinho que se faz no mar no canto da praia, na esperança que se dissolva sozinho na água salgada.

Mas, às vezes, a maré nos trai, trazendo o cocozinho de volta à tona antes de dissolver, bem no meio da praia.

Anos depois, durante uma sessão da tarde de quarta-feira com versão censurada sem cruzadinha de perna, revi o filme. Primeiramente lembrei como a Sharon Stone realmente era gostosa. Em seguida recuperei minhas anotações de outrora, recordei minhas sessões de vegetoterapia e, se não solucionei todos os mistérios que pipocavam em minha mente desde a première do filme uma década antes, ao menos encontrei o porquê de ainda não ter comido a Sharon Stone: ela também não olha no vaso antes de dar a descarga. Esta é a única explicação plausível. 
    

O Aloísio que não é do campo é o Aloísio da Cidade | hmmm, já mijaram neste póst