Blogs do Morfina
Menu Lateral
Perticipe do Morfina Sobre o Site Fala com a gente Acesso o arquivo Participe do Morfina
Home > > O cara mais underground

O cara mais underground

Segunda, 21 de Maio de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Eu acordei triste, tristinho, mas melhorei quando fui convidado para enfrentar o grande pesadelo que são os shows de gente grande. Fui ver o Zeca Baleiro no SESC. Pode ser um traço de sadismo, pode ser mutilação do respeito próprio, mas eu fui. Eu fui onde mais outras 4.999 pessoas iam e me espremi nas gigantescas filas, para comprar, para entrar, para respirar. Mas eu fui, armado de toda a minha paciência, desejo e mais nenhum recurso, apenas uns parcos trocados. O convite da gatinha era inegável. Saí do trabalho e fui direto. A fome dava sinais de vida.

E no meio desses 4.999 estava ela. Quando eu a vi, os outros 4.998 desapareceram. Se eu estava feliz de estar naquelas gigantescas filas? Claro que eu estava. Eu havia enfrentado a chuva fina, o estacionamento caro longe do local, o risco constante de voltar lá e não ver meu carro mais. Mas eu teria chegado com flores, claro, se ela não tivesse me apresentado o cidadão de número 4.997.

A gente nunca sabe qual é que é do cara ao lado. Pode ser apenas um amigo, pode ser um concorrente. Pode ser ninguém. Mas ele estava lá. E estava sobrando. Mas não desgrudava. Entramos no galpão escuro. Paredes lisas. Lá no fundo, longe mesmo estava o palco. A estrutura bruta de metal com os instrumentos pacificamente deitados aguardando a chegada do mestre. As luzes apagadas e as pessoas conversando entre si.

Eu olhava o outro nos olhos e a ela eu olhava tudo. A boca, os quadris, as pernas, o sorriso e o decote. Linda, linda... Enquanto as filas escoavam vagas como lagartas gordas para dentro do galpão escuro, aguardávamos, conversando sobre nada. Meia hora de atraso e nenhum assunto.

- Alguém quer uma cerveja? – Ofereci. Ambos aceitaram. Minha fome apertava.

- Olha, eu estou com dinheiro trocado aqui...

- Desencana, disse e retornei pelo longo percurso que separava o palco da entrada, onde as pessoas pacientemente se aglomeravam ao redor do barzinho improvisado. Não havia filas. Havia massa de corpos. Alguns faziam piada, outros faziam ameaças. Mais tempo escoou lentamente. O homem das balas já estava 45 minutos atrasado. Empurrado e enxovalhado de todos os lados, cheguei ao balcão, desafiando a maioria das leis da física. Pedi um sanduíche pronto e três cervejas. Uma para mim, uma para ela e uma para aquele bunda que deveria estar cerceando a moça.

Enfiei o lanche suspeito no bolso rezando com uma mordida profunda e, ao retirar a cerveja, fui surpreendido com três largos copos de plástico. Latas não seriam permitidas na área do show. Eu considerei a possibilidade de gastar cinco minutos pensando no por quê das latinhas serem banidas, mas o coeficiente de filosofia estava em baixa enquanto o de ciúmes subia.

Com os dedos, abracei os três copos tentando não deixá-los cair, nem esmagá-los. Pincei um com cada polegar opositor e com os dedos médios das duas mãos, cerceei o terceiro. As gotinhas geladas corriam pelas minhas mãos até o punho. Minha boca aguava do lanche e meu cérebro fritava com as possibilidades dos dedos daquele sacana envolverem a gatinha.

Quando o meu primeiro pé pisou na nave principal do galpão, e à distância assomei o palco, as luzes se apagaram. Uma onda de grito coletivo assomou atrás de mim enquanto o chão vibrava com o tropel de fãs empolgados me cercava como um estouro de bois. Todos os 4.997 passavam ao meu redor, em direção ao palco.

Plantei firmemente os dois pés no chão e aguardei não ser levado pela maré de gente, nem derrubar ou esmagar os três copos de plástico. Muito esbarraram em mim, mas agüentei. Joguei, ginguei, aguardei, dancei e com poucos respingos de cerveja nas mãos, observei o Zeca pintar no palco com seu indescritível charme hipnotizar as pessoas.

Escuro. Cerveja esquentando. Massa de corpos ocupava o meu caminho até o palco e a mera possibilidade daquela gata estar onde eu a deixei. Enfim, o estouro sossegou. Pessoas dançavam em seus lugares, formando um muro de gente.

Nas mãos, três copos de cerveja trincando de gelados, inatingíveis. Bebi um pequeno gole do da direita, que foi o que bastou para não derrubar o da esquerda no meu ombro. Bebi um gole do da esquerda, e o da direita sobreviveu. O do fundo, impossível. Inatingível. Pediria ajuda para alguém ao meu redor? Não, não seria uma grande idéia. Colocar os copos no chão? Menos ainda. Enquanto isso, o tentador sanduíche no meu bolso deveria adquirir contornos de McDonalds. O de verdade, não o da foto.

O que fazer?

Minutos escoaram. Músicas se desenrolaram. E as cervejas esquentavam.

Enquanto eu considerava cuidadosamente a possibilidade de arremessar os três copos imbebíveis no chão, a luz surgiu, não no fim do túnel, mas no fim do galpão. O banheiro. Salvação da lavoura. Armado de capoeira e finta de zagueiro, fui me defendendo de todas as danças desvairadas. Os braços soltos, os quadris irresponsáveis, os abraços dos namorados. Esquivei. Me senti um pugilista sambando de cá para lá.

Pela moldura brilhante da porta do banheiro, eu via lá dentro uma singela e discreta mesa. Pequena, velha, baixinha, mas uma mesa! Há 3 metros de distância da mesa, eu já pensava se pousaria os três copos e beberia os três inteiros, ou se beberia um e tentaria achar minha prometida com os dois na mão. Uma loira pequena e trêbada amparada em seu namorado conseguiu no entanto acabar com o peso da decisão. Copiosamente, vomitou sobre os três copos, minhas mãos e braços.

Pelo absurdo, fiquei sem reação. Não saberia decidir entre esmagar os copos e jogar na cara da vagabunda ou se iria com as mãos direto para o seu pescoço. O namorado tentou murmurar uma desculpa, mas não quis ficar ali para ouvir. Lavei as mãos durante duas músicas, mas o maldito cheiro de azedo não saía.

Recuperei o lanchinho esmagado no meu bolso, achatado como uma paçoca e arremessei no lixo mais próximo.

A fome desaparecera por completo.


coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 2 sublimes almas