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O cão foi que botou pra nóis bebe
O cão foi que botou pra nóis bebe
Segunda, 21 de Abril de 2008
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
Um demônio desceu para a terra e foi parar em Pernambuco. Tocou no chão e já disparou a falar o português do jeito que se fala lá.
- Calor da porra... – grunhiu enquanto entrava no botequinho sujo.
Tirou o chapéu panamá de palha, sacou o lenço do bolso do terno de linhjo branco, secou a testa, encostou a barriga no balcão e pediu qualquer coisa o que beber.
- Como assim, qualquer coisa? – perguntou o lisboeta atrás do balcão.
- Qualquer coisa, ó Manel. Desde que seja líquido, que tá quente como o fundo do inferno aqui.
- Pois tu peça algo que seja líquido, pois que não sou parvo e nem adivinho. E meu nome é Carlos.
- Ééé, tanto faz o nome quanto faz a bebida. Me dá logo uma cerveja, vai Manel.
- De qual marca?
- Tanto f... me dá skol.
- Não tem.
- Brahma?
- Não tem.
- Qual marca que tem?
- Cintra, Cristal e Kaiser.
- Esquece, me dá Coca.
- Lata ou garrafa?
- Garrafa.
- Não tem.
- Então me dá logo uma lata, muléstia!
O português entregou a Coca ao demônio e resolveu ficar ali por perto, um olho nele, um na freguesia. O demônio perscrutou o bar. Aos seus olhos, saltaram as almas condenadas que infestavam a bodega: ladrões de galinhas, putas velhas, traficantes pequenos, vagabundos assumidos... tornou ao portuga:
- Vem cá, Manel, que cidade é essa?
- Como?
- Que cidade é essa? O nome da cidade? Onde eu vim parar? Você sabe, eu não consigo escolher a cidade, só miro mais ou menos na região e me jogo. Voar é coisa de anjo...
- Caruaru.
- Caruaru? Nem João Pessoa? Miséria, que buraco... Quantos habitantes?
- Uns... 250 mil?
- Ahn... É, não é tão pequena, talvez eu dê sorte... Minha cota anda muito baixa, meu chege tá arretado que nem donzela querendo dar. Não pára de falar na minha orelha. Também, o que ele quer? Ta uma merda achar uma alma que preste; rico, pobre, todo mundo já está condenado. Tudo degenerado. Aí eu resolvo vir para o nordeste, atrás de uns baianos hospitaleiros, bons de coração e venho parar onde? No seu bar! Quer dizer, olha esses tipinhos que você tem aqui...
- ‘Scuta aqui, ó fedelho enxerido tu não...
- Tu quem é? – a pergunta vinha de um dos muito jovens vagabundos que buscavam sombra na birosca do português naquele final de tarde pasmacento. O balconista silencia. O demônio ergue uma única sobrancelha para o franzino feio que vinha arrastando os pés em direção aos dois.
- Tu quem é, homi?
- Azrael, não que isso seja problema seu. E você, fracassado? Quem é?
- José Jeremias do Nascimento. Você ta procurando gente para ser famoso, é? Eu sou cantor, ó: eieieiei, sem você não viverei. Eieieiei...
- Pelamordocão, menino, cala boca e voe se vira esse bafo de pinga para lá. Não, eu não sou agente, produtor, caça talentos e nem nada disso. Sou um demônio vindo do inferno para cooptar almas.
- Tu é o diabo?
- Não, o diabo é o meu patrão. Eu sou um demônio. Trabalho para ele.
- Então tu veio comprar minha alma?
- A sua? Sua alma não vale porra nenhuma! Só a papelada que a compra da sua alma vai me render não vale o esforço.
- Mas eu vendo! Você me faz cantor famoso. Eu quer ser um cantor romântico. Eu até já sei cantar, quer ouvir? Eieieiei, sem você...
- Pára! Chega! Já disse que não peste! E com essa voz de araponga resfriada você não dá nem para cantor de funk.
- Funk? Pode ser... tipo Earth, Wind and Fire?
- Não vou comprar tua alma, fiote de jegue! Tu não vale nada.
- Ô seu moço, dá uma ajuda. Eu não tenho nem para a conta... Esse calor dá uma sede...
Apesar do diálogo absurdo, só nessa hora o dono do bar fez menção de se manifestar.
- Ora pois...
- Já disse que você não vale nada para mim, oxe. Vem cá, tu faz caridade?
- Não.
- Ajuda as pessoas? É bom com sua mãe, que seja?
- Não.
- Você tem uma profissão que beneficie o mundo? Aliás, você tem emprego?
- Não.
- Tem estudo?
- Não.
- É artista, pelo menos?
- Eu sou cantor, ó: eieieiei...
- Ai, caralho! Escuta, se eu te pagar uma pinga você cala a boca? Manel, dá uma talagada da branquinha mais vagabunda que você tem aí. A mais barata! Isso, essa aí...
- Deixa a garrafa, seu Carlos.
- A garrafa, moleque?
- Deixa a garrafa que o diabo num é miserável de me pagar só uma dose. A gente tem um acordo e hoje eu vou vender minha alma. O cão vai me fazer um cantor muito famoso!
Azrael aquiesceu com um gesto para o homem atrás do balcão.
- Sim, muito famoso... – gemeu o demônio puxando do bolso um calhamaço de 450 páginas amareladas e carcomidas nas bordas, escrito à mão, na caligrafia delicada e cheia de floreios do diabo.
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