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Nos tempos do bailinho
Nos tempos do bailinho
Quarta, 31 de Janeiro de 2007
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
Ele não tinha mais muito tempo. Em alguns minutos, meia hora no máximo, o pai provavelmente estaria na porta, esperando ele sair da festinha de aniversário do amigo. Gustavo tinha então 11 anos, era um garoto bonito, apesar da timidez que o deixava praticamente isolado de todos que não fossem seus amigos mais próximos.
Lucas era seu melhor amigo, por isso estava ali naquele instante, em sua festa. Apesar das músicas animadas que ele tanto gostava, ele não tinha coragem de ir até a pista, se limitava a ficar perto dos salgadinhos, comendo uma coxinha eventualmente e tomando guaraná.
Então chegou o momento que ele tanto aguardava ao mesmo tempo que gostaria que jamais acontecesse. Começaram a tocar as músicas lentas e o baile da vassoura teve início. Meninos de um lado, meninas do outro, esperando que os primeiros as tirassem para dançar.
Além de ser aniversário de Lucas, existia um outro motivo que sempre o levava às festas dos amigos.
Ela se chamava Cecília. Estudavam na mesma sala, mas Gustavo tinha certeza de que ela jamais reparara que muitas vezes sentavam-se próximos. A professora gostava de alternar as carteiras em que os alunos sentavam, colocando-os sempre próximos a outras crianças. Segundo o pai de Gustavo, isso se chamava praticar a socialização. Mas Gustavo só se importava com isso porque dava a chance de vez ou outra se aproximar de sua amada.
Sim, ele a amava em segredo, ninguém sabia disso. Nem mesmo Lucas.
Gustavo a achava a mais linda das meninas de seu ano. Gostava quando amarrava seu cabelo castanho claro em um rabo-de-cavalo, como estava agora, porque então todos os detalhes de seu rosto explodiam para ele. Os olhos que pareciam estar sempre sorrindo, o nariz delicado, os dentes de uma brancura indescritível.
Hoje ela estava usando um vestido branco, bem simples, que lhe caía muito bem. Se bem que, no que dissesse respeito à opinião de Gustavo, qualquer coisa lhe cairia bem.
Ele se perdeu por muito tempo nesses devaneios e não percebeu o tempo passando. Seu pai logo estaria na porta e ele não podia perder mais uma oportunidade. Já foram tantas as festas em que ele ficava de longe vendo Cecília dançar. Mesmo quando ela não estava dançando, sua timidez o impedia de tirá-la para o salão. Desta vez teria que ser diferente.
Gustavo se aproximou, aproveitando que ninguém a tinha tirado para dançar. Suas mãos estavam quentes, ele se sentia tomado por uma euforia desmedida. Seu coração parecia uma britadeira em seu peito. Meio sem jeito, com medo de estragar tudo, perguntou, um pouco olhando para o chão, um pouco olhando para ela:
- Cecília, quer dançar comigo?
- Claro! – ela respondeu, de uma forma tão espontânea que quase fez com que Gustavo desmaiasse.
Como ele não o fizesse, ela procurou sua mão e a segurou enquanto andavam para a pista. Muito anos depois, tentando se lembrar dessa noite, Gustavo poderia jurar que não sabia como tinha feito suas pernas obedecerem.
Chegaram no exato momento em que a música mudou. A próxima era uma das favoritas de Gustavo. Enquanto ele pensava nisso, magicamente Cecília disse:
- Eu adoro essa música.
Ele não sabia muito bem como proceder, mas isso não foi problema nenhum. Eles se abraçaram como se aquilo fosse a ordem natural das coisas. Mantiveram aquela distância que todos os casais mantinham na pista por pouco tempo, se aproximando como se fossem dois ímãs. Gustavo não podia acreditar que tudo aquilo estivesse acontecendo. A música o invadia e ele se sentia simplesmente feliz, a felicidade ingênua que sentimos quando uma só coisa faz o mundo inteiro ter sentido e se tornar completo.
Pouco tempo depois teve que ir embora, seu pai já estava esperando fazia algum tempo sem coragem de separar o casal que a cada música continuava abraçado.
No carro não escutava o pai. Olhando pela janela, não via nada, os outros carros, as outras pessoas, as outras vidas que se desenrolavam independente dele. Naquele momento ele sentia como se tudo que existisse tivesse o único propósito de fazer acontecer os últimos vinte minutos.
Para sempre iria se lembrar do momento em que, enquanto dançavam, a cabeça de Cecília suavemente pousou em seu ombro e ela disse:
- Achei que você nunca fosse dançar comigo.
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O setlist:
Spandeau Ballet - True Rick James - Ebony Eyes Marvin Gaye - Sexual Healing Cindy Lauper - Time After Time Alphaville - Forever Young RPM - London, London Crowded House - Hey Now Dire Straits - Your Latest Trick Simply Red - Holding Back The Years George Michael - Careless Whisper
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