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Nos corredores de um bar qualquer

Quarta, 7 de Novembro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

    Perdeu-se na meia-luz de um refúgio pós-cotidiano, onde as dores da rotina podem ser parcialmente diluídas num desabafo etílico com o espelho, ou simplesmente em confissões ao barman.

Citava Frejat enquanto chamava para si a culpa por não estar em casa cuidando de seus filhos e de sua mulher. Talvez por não tê-los, talvez por sonhar em um dia alcança-los, na realização de um sonho costumeiro.

Foi entre um gole e uma tragada de fumaça que pôde percebê-la entrar pela porta e descer vagarosamente as escadas, na esperança de reconhecer um rosto ou um ombro, onde pudesse descansar suas aflições passageiras.

Olharam-se de relance. Ele fingiu não estar interessado na morena doce e esguia. Ela realmente não notou ninguém entre tantos que ali expressavam a mesma angústia.

Sentou-se no balcão, pediu um Martini. Olhou novamente ao redor balançando os cabelos e exalando um perfume suave e cítrico. Ele mais uma vez recusou-se a encará-la, com medo de reencontrar a história de mesmo final, mesmas discussões, mesma perda.

Somente alguns poucos metros separavam os dois. Podia observar suas lágrimas invisíveis pelo jeito de dobrar as pernas e apoiar a bolsa no balcão. Cabia a ele decidir como seria sua vida daqui em diante. Uma simples recusa era reprimida por seu ego cicatrizado e qualquer resposta seria definitiva para mudar seus rumos.

Ali, ao lado da mulher com quem passaria todos os dias de sua vida, desejou o Amor em sua singela porção, como qualquer um deseja: puro, sem fronteiras nem barreiras, mesclando um ao outro como se sempre tivessem sido o mesmo, desde o nascimento, em histórias que se cruzariam eternamente.

Podendo tocar as mãos e os lábios em comunhão ao material e ao inatingível, admirando cada sorriso, cada gesto, cada vício. Esperando que pudesse acordar sempre ao lado dela, assistindo ao seu sonho, alisando seus cabelos. Sem pressa, sem medo. Sendo assim o Amor verdadeiro.

Levantou-se, pegou o casaco e o maço de cigarros. Andou em passos tímidos rumo ao futuro perfeito, à conquista da mais bela das riquezas.

Abriu a boca e a porta, dando ampla meia-volta e mergulhando novamente no mundo dos solitários entre o caos humano.

Despediu-se de tudo o que podia ter sido aquele encontro com o destino, abdicando da ocasião dada como presente ao sonhador. E ele tinha tudo ali, nas mãos, tão próximo...

Ela então pôde expressar seus anseios junto ao copo da bebida cristalina e os funcionários da casa, acostumados com os desencontros perfeitos que deixam no ar a história inacabada dos inúmeros amores possíveis, desperdiçados nos corredores de um bar qualquer.


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