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Nos braços de Virgulino

Terça, 16 de Outubro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

 A vida de viajante do tempo não é fácil. Pelo menos era o que achava Jonas. O que ele queria era ter um delorium e viver altas aventuras, como o Marty McFly. Mas o que ele tinha era que cumprir ordens na agência de viagens no tempo “É Pra Ontem”. Um emprego como quase outro qualquer.

Pelo menos eles davam ticket. E gostavam de novas tecnologias. Depois de muito sofrer viajando pelo tempo em um ônibus coletivo de viagem no tempo, Jonas ia experimentar dessa vez um novo sistema. Diziam ser um capacete fantástico.

- Mas chefe, isso é um chapéu de cangaceiro cor de rosa.

- Isso, mas é sua nova máquina do tempo. É muito moderna. É só você pensar sobre que época que ir e é pra lá que você vai.

- Eu preciso sempre ir pra ontem, pra pagar as contas que o senhor esqueceu e resolver os pepinos que ficaram pra trás de hoje.

- Por isso mesmo. É só pensar na fila do Bradesco de ontem e você vai pra lá.

- Mas com esse chapéu de cangaceiro eu só vou conseguir pensar na época do cangaço...

- Vai na minha, fica tranqüilo.

Jonas não tinha muita escolha. E, no final das contas, era melhor viajar no tempo sozinho com um chapéu de cangaceiro cor de rosa do que ter que pegar o Lapa-Penha do tempo.

Tentou pensar no Bradesco, mas só conseguiu se lembrar de Virgulino Ferreira. E pum, como num passe de mágica, apareceu no sertão nordestino dos anos 30.

Jonas surgiu bem no meio de uma reunião dos cangaceiros, vestindo calça Lee, camiseta e chapéu de cangaceiro cor de rosa.

Virgulino, com um olho meio aberto e outro meio fechado, olhou de soslaio.

- Oxe, mas que cabrocha arretada!

Jonas tentou pensar em Cleópatra tomando banho de leite de cabra, mas não conseguiu viajar ao Egito antigo. Sua mente estava vazia, e o chapéu também não ajudava.

Lampião chegou logo mais perto. Como não enxergava muito bem, e como Maria Bonita não estava muito perto, pensou logo em tirar uma lasca.

- Mas tu é bonita que só uma peste. Chegue mais.

- Mais olha meu gogó, eu sou é macho.

- Oxe, deixe de ser besta e vai arriando as calçola.

Para o azar de Jonas, o Lampião achou ele “linda”. E resolveu passar ele na chincha com todas as preliminares. Isso incluía mordaça, cera de vela e esfregadas de bacamarte em lugares onde Jonas nunca havia imaginado.

Depois de Lampião ter feito todas suas atrocidades sexuais, Jonas conseguiu pensar novamente. E se lembrou de o quanto era ridículo aquele chapéu de cangaceiro cor de rosa.

Já sem dignidade, pensou que aquela porcaria de chapéu teria feito sucesso nos anos 80. E pum, apareceu de repente em uma festa new wave. A festa era gay, e o Jonas fez mesmo muito sucesso. Não com as mulheres, para sua infelicidade.

Lembrou do Bradesco e da conta de “ontem”. Acabou finalmente indo parar no banco, nos dias de hoje. A menina do caixa de que ele tanto gostava estava de folga. Mas o rapaz substituto deu-lhe uma piscadela depois de receber as contas.

- Sou cabra macho, rapaz -, disse Jonas, enterrando o chapéu de cangaceiro na cabeça, embora tenha deixado a fila com as pernas um pouco arqueadas.

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