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No Bar do Mineiro - "Duvido"
No Bar do Mineiro - "Duvido"
Segunda, 4 de Junho de 2007
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
Como a chuva já caía torrencialmente, os dois decidiram esticar o happy hour até as últimas gotas. Já estavam bem embalados e as mesas mais próximas começavam a ouvir todos os detalhes das suas façanhas etílicas e sexuais durante a faculdade. As histórias faziam alguns rirem, tentando não demonstrar. Outros achavam uma tremenda imbecilidade. A maioria nem prestava atenção. - ... foi lá naquele bar na frente da faculdade. Nunca vi coisa igual, bebeu todas e saiu cambaleando para o banheiro. E ficou por lá. E ninguém na mesa estava muito bem também, pagaram a conta, foram embora e encontraram o cara no banheiro no dia seguinte, dormindo. Deram gargalhadas histéricas. Sim, o outro lembrava bem da história. - E quando a gente saiu sem pagar, lembra? Aquela tremenda dureza, todo mundo de fogo, você enrolado com aquela menininha, foi o primeiro a sair. Saiu outro e mais outro, ai eu sobrei. - E você, o que fez? - Não lembra? Eu não tinha nada para fazer, não tinha um puto, levantei e fui embora também. Os dois continuavam a rir. - É, cada besteira que a gente aprontava. Essa época foi ótima. - É verdade. – Os olhos baixaram para a mesa, sob o peso das memórias. Retomou o picotar da bolacha de chope que estava sob a garrafa de cerveja. – Pena que já não somos mais os mesmos. - Como não? Fale por si mesmo! Eu ainda tenho a mesma energia. - Mas você nunca saiu de um bar sem pagar a conta. Pelo menos não depois de ter se casado com a Marilda, que consertou você, aliás. – Jogou os picotes da bolacha sobre o cinzeiro já cheio, rindo. - O que não quer dizer que eu não faria. - Na época talvez, mas como eu disse, não somos mais os mesmos... - Mas como eu disse, fale por si mesmo. – Ergueu os olhos para o pesado semblante do homem de bigode espesso atrás do balcão – Mineiro, desce mais uma? Sem mostrar um centímetro de lábios e nem mudar uma ruga de lugar no rosto, parou de limpar o balcão com o velho trapinho e abriu a geladeira atrás de uma cerveja. Os dois agora conversavam baixinho. - Você não quer dizer que... Você não teria coragem! - Quer apostar? - Hmmmm... Não sei... Quanto? - Cinqüentinha, que tal? - Sei lá, acho que estou meio durango esse mês... - Olha só, essa conta nossa já vai dar mais do que isso, com as cervejas e os lanches... - É e tem os salgados e o cigarro... - Então? Vale? Pensou mais um pouco. Olhou para o segurança na porta, para o balconista e encarou o amigo. - Tá bom. Está valendo. Te espero no posto de gasolina na esquina, pode ser? - Não demoro mais do que 10 minutos. Cruzou o segurança sorrindo e conduziu o carro a nada por hora até o posto de gasolina. O outro terminou a cerveja. Olhou para um lado, olhou para o outro e foi até o banheiro. Em poucos minutos atravessava o bar assim como quem não quer nada em direção à porta. Encontrou o braço do segurança segurando o batente e o olhar voltado em direção ao balcão. - Não está esquecendo nada, não? – O olhar do porteiro encontrava o do barman, que apontava o pretenso caloteiro com um dedo discreto. - Ah, hã, acho que nada não, por quê? - A conta, quem sabe? – O leão de chácara ainda não lhe olhara na cara. - Ah, é, puxa vida, que mancada, já ía me esquecendo... Só aí encontrou os olhos do homem. - Sei. Voltou para o interior do bar e encarou o barman. Existem outros métodos. - Mineiro, eu sei que isso é uma coisa que não se pede, e eu estou morrendo de vergonha, mas é que, bem, meu amigo foi embora e eu tive um mês meio complicado. Será que eu não poderia deixar, sei lá, meu RG e depois acertava com você? É só esperar virar o mês, sabe, porque eu estou com uns problemas em casa... O homem que o encarava impassível abaixou a cabeça levemente, mantendo fixos os olhos no dele. O bigode parecia ter se mexido, mas foi apenas para esconder ainda mais a boca. O caloteiro decidiu apelar. Assassinou a sogra. E pagou o jazigo. As rugas na testa do homem do bar aumentaram e se comprimiram. Ele assassinou a cunhada, e pagou outro jazigo. Não deu. Internou um sobrinho. - ... foi um acidente horroroso, precisava ver o que sobrou do carro. Se é que se pode chamar aquilo de carro. Ainda nada. Matou o sogro também, mas esse, ele cremou. Atrás do balcão, o homem permanecia imóvel. - Tá bem. Tá bem, eu te entendo, você também está defendendo o seu. Deixa eu ir no banheiro lavar essas lágrimas e já te pago. Trancou a porta do pequenino banheiro e investigou todas as paredes. Uma pequena janela dava para a rua de trás. Lá vou eu, pensou, mas sequer conseguiu passar os ombros pelo buraquinho escancarado a golpes de sapato no vidro. O pé de apoio sobre a borda da privada ainda escorregou e foi parar lá dentro. Saiu mancando com o pé molhado do banheiro e debruçou-se no balcão de novo. - Mineiro, dá outra dose de whisky. – O homem serviu com cuidado e uma leve desconfiança. – E deixa a garrafa. Meia hora depois, volta o amigo impaciente. - Ahá, eu sabia. Acho que você me deve cinqüenta paus! – Falou o desafiante. - A aposta ainda não acabou – falou discretamente o desafiado, para que ninguém ouvisse. Olhos fixos no copo, do qual sorveu um grande gole. - Ah, cara, esquece isso, já não tem mais jeito. - A aposta ainda não acabou. - Bobagem, olha, eu esqueço essa besteira e nós vamos para casa, tá? O olhar frio do desafiado foi tudo o que ele não precisava. Deixou-o para suas próprias convicções. - Mineiro, dá aquela garrafa de... Do quê que é aquilo ali? No meio da madrugada lá estava o desafiador de volta, vestindo apenas um casaco sobre o pijama. Aquela calça velha de flanela que ele chamava de pijama. E tênis. Entrou quase esbarrando no policial que saía. Descabelado olhou para o corpo do amigo largado no chão abraçado na garrafa. Outro policial puxava o lençol branco de volta sobre o rosto do defunto. Fingiu que não viu nada interessante e saiu para a calçada. Enquanto seu celular tocava pela segunda vez na madrugada pensou: “Filho da puta, ganhou a aposta”. - Alô, Marilda? Sim, encontrei. “Será que fica chato eu jogar um cheque no caixão?”
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