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Ninguém é feliz no botecoSexta, 11 de Maio de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Entre num boteco. Sim, um boteco de esquina, sujo, com balcão de fórmica. Uma boa analisada vai mostrar que ninguém ali é feliz. Um acabou de tomar um pé na bunda, o outro foi corneado pelo próprio irmão, o terceiro tem uma mulher em casa muito mais gorda e mais feia do que ele queria. E, é claro, todos eles não têm dinheiro.É isso mesmo. Essa história de que no boteco você encontra os amigos é uma grande mentira. Quem tem amigos recebe as pessoas em casa, com latinhas de Nova Schin. A idéia de que os verdadeiros companheiros estão na beira do balcão é desculpa para quem precisa beber para se esquecer do mundo. Talvez seja por isso que no boteco há sempre muita criatividade. É a tristeza. É a confirmação da idéia dos poetas românticos de que só se é criativo na tristeza, na doença ou beirando a morte. Cansei de ser infeliz. Com certeza, a minha freqüência nos botecos é culpa da minha infelicidade: dívidas no banco, sete anos sem uma namorada, ausência de amigos. Conversei sobre isso com o Sinval (para quem não conhece, o dono do boteco em frente à minha casa). Ele me confirmou: “em 30 anos de boteco, nunca vi gente feliz debruçada no balcão”. É isso. Essa coluna não vale nada. Afinal, no boteco não há nada que possa servir para dizer às pessoas. A partir da próxima quinzena, ela vai tratar de temas mais importantes: religião, auto-ajuda e responsabilidade social. Além de ser mais útil, com certeza vai ter mais leitores. Vou aproveitar também a presença do papa no Brasil para abandonar o boteco, o mundo da perdição e a pinga canelinha. Hoje vai ser a minha despedida. Vou beber até cair. |