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Nauta, o Homem-Beterraba
Nauta, o Homem-Beterraba
Quarta, 24 de Outubro de 2007
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
Nauta sempre foi um garoto tímido e que vivia praticamente 90% do tempo em “seu próprio mundo”.
Nasceu nos berços de bronze da classe média, aprendendo desde o início sobre as obrigações do homem e seus poucos direitos.
Na escola ia muito bem (obrigado), sendo sempre um exemplo para os outros alunos e o orgulho dos professores.
Por causa de sua timidez, nunca se relacionou muito bem com o sexo oposto. Mergulhava em amores platônicos nunca expostos ou correspondidos.
Apesar disso tudo, todos eram seus amigos e prezavam muito sua companhia.
De tanto querer fazer parte dos grupos mais populares, Nauta ficava atento a todas as novidades que surgiam nas rodinhas dos intervalos. Tanto que, numa bela manhã, foram levadas aos seus ouvidos, informações quentíssimas sobre uma nova forma de impressionar a galera: comer beterraba aos montes e mijar vermelho.
Noooooossa! Aquilo era demais! Será possível mesmo observar sua urina totalmente magenta ou rubra? Nauta tinha que ser o primeiro a provar se esta teoria era real ou uma simples invenção infantil. Muniu-se de coragem e anunciou ao bando de moleques:
_ Hoje, não seremos mais os mesmos “homens”. Teremos nas mãos a infinita possibilidade da mudança, seremos lembrados para todo o sempre em honra e coragem pelo bem da ciência. E, claro, poderemos até ficar famosos ou, no mínimo, reconhecidos pelas mais belas garotas que correm por este pátio escorregadio.
E logo chegava a tão esperada hora da merenda. Todo o bando muniu-se de bandejões e talheres, prontos para experimentar a iguaria sem limites.
Dizem que naquele almoço de sexta-feira, foram consumidas quantidades recordes de beterraba, como jamais relatadas anteriormente.
Em alguns minutos, poucos ainda aguentavam comer alguma coisa, já estufados pela mistura de bife a cavalo com alface, cenoura e beterraba. Outros abandonavam a tarefa arrasados pela derrota e alguns ainda acreditavam que em poucas horas o lavatório estaria irreconhecível e todo pintado.
Mas lá estava Nauta, o líder do movimento RedPiss, disposto a tudo pelo reconhecimento. Não pegou mistura nem saladas, tampouco beliscou o bife com ovo. Seu bandejão era só beterraba e já corria para sua terceira rodada:
_ Beterrabas por favor.
_ Mas Nautinha, você nem sequer vai experimentar o resto?
_ Não, não, muito obrigado. Só beterrabas.
E continuou firme na tarefa, sem desistir ou fraquejar. Todo o refeitório agora levava atenção ao garoto-beterraba, enquanto era possível começar a ouvir os gritos de encorajamento ao fundo: Nauta, Nauta... ou então: Homem beterraba! Homem beterraba... A emoção era enorme. A adrenalina crescia. Não estava acostumado com aquele auê todo para si.
Já podia sentir o reconhecimento na posteridade: “Por aqui passou Nauta, um garoto de talento e bravura”.
Ficava entusiasmado a cada garfada das rodelas cozidas e salgadas de beterraba. Vibrava ao som da torcida, tremia de emoção. Foi quando parou com o garfo entre os dentes e sentiu que alguma coisa acontecia internamente. Desejou que fosse sua bexiga preparando-se para expelir o líquido escuro e vibrante, para delírio da galera. Mas percebeu que o problema era mais acima.
Tossiu de leve, levou as mãos ao estômago e olhou suplicando o auxílio de seu melhor amigo, Gordines, que já percebia a enfermidade de Nauta:
_ Chegaaaaaaaa... Ele quer falar alguma coisa!
Silêncio. Todos estavam apreensivos e com os olhares e audição fixados em Nauta, que levantou devagar, ficou verde e, enquanto todos esperavam suas palavras de glória e vitória, abriu a boca despejando litros e mais litros de vômito roxo sobre a mesa do refeitório.
A multidão pulsou em pavor enquanto o conteúdo estomacal de Nauta era apresentado em forma de beterrabas mastigadas por todo o salão. Alguns vomitaram junto, não contendo a ânsia diante tal cena de horror. Correria, pânico... Alguns choravam, outros gargalhavam e a batalha rumo ao sucesso deu lugar ao mais relembrado mico da escola.
Nauta foi chamado de herói e também de palhaço, mas ficou conhecido por todos, sem exceção. Após alguns anos depois de formado, penduraram um quadro em sua homenagem no imenso refeitório:
“Proibido fazer refeições de apenas um item. Mínimo de duas misturas e guarnições à vontade.”
E nunca mais serviram beterrabas naquele estabelecimento.
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