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Nauta e o ET VQuarta, 2 de Janeiro de 2008* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor _ Brindemos à sagrada cerveja. E como dizia a música: como se fosse champanhe!Nauta explodiu a tampa metálica da garrafa num estouro molhado, liberando a pressão gasosa. Uma bela garota ao seu lado segurava as taças de cristal a serem preenchidas com o líquido avermelhado, enquanto fazia a contagem regressiva para o ano que nascia. _ Esta é Belga – disse o rapaz querendo impressionar a leiga bebedora. Discurso idiota e machista: _ Que você seja minha, que os frutos sejam fartos. Num breve brinde as taças se tocaram e... BUM! O chão começou a tremer derrubando os quadros e a TV. Um som grave vinha dos andares de baixo como ferro retorcendo-se entre o concreto. O vidro da janela estoura e uma rajada fria de vento corta a sala fazendo com que papéis, CDs e DVDs - bem como toda prataria - levantassem vôo num rodamoinho violento entre as paredes espremidas daquele apartamento. Através do buraco aberto pela ventania naquele tímido nono andar, era possível observar uma onda enorme destruindo impiedosamente as estruturas pelas ruas. Casas, postes, carros, tudo era arremessado fortemente entre as espumas escuras da onda. Um vórtice negro descia lentamente por entre as nuvens carregadas e ofuscadas pelos relâmpagos estroboscópicos que dividiam seu brilho alvo ao avermelhado da lava que era arremessada pelas colinas de asfalto. Era claro, era o fim. Enquanto todo o padrão humano era dilacerado pela violência da natureza e os primeiros asteróides atingiam a Terra, incendiando a vida existente, Nauta sentiu a grandeza de estar ali naquele momento. Entendeu que ele, e todos - que se despediam juntos da vida material, no mesmo segundo, no fim de tudo, no retorno ao nada grandioso que cria e é único, pleno, sem bem ou mal - eram uma única porção de vida, um único ser expandido aos bilhares sobre um ponto ilusório no espaço, acreditando cegamente que aquilo era real. Uma rajada de fogo aproximava-se da construção, já despedaçada pela água e pelo vento. E foi crescendo junto com o temor, com a despedida. Nauta chamou por sua mãe, chorando. Deu um último grande gole na cerveja e berrou alto, com toda sua potência vocal: _ Aaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh... Levantou num susto, suado e tremendo. O mesmo quarto, a mesma cama. Nada havia sido destruído ou alagado. Respirava ofegante e, aos poucos, foi voltando à vida acordada. De longe ouvia um som agudo e irritante, um guinchado de roedor, metálico e estridente. Olhou para o lado. ET gargalhava e rolava em sua cama improvisada no canto do quarto, ao lado da coleção de discos de vinil. _ Meu Deus, foi tão real! – Suspirou Nauta ainda entre o sonho e o despertar. _ Pois é, caro terráqueo, pesadelos são comuns após muita comida oleosa e álcool. _ Foi tão real! _ Acho que você está começando a entender. Minha breve presença já mexe com seus pensamentos. _ Você também estava lá? _ Digamos que os asteróides foram influência minha, o resto foi seu mesmo. E já que será impossível voltar a dormir após tamanha experiência, que tal visitarmos aquele tão prometido boliche? _ Mas eu nem moro em um apartamento no nono andar. O que foi tudo aquilo? _ No caminho podemos conversar, ok? Agora vista-se e vamos andando! Nauta concordou sem pensar e foi levantando devagar. Tudo voltava ao normal, mas com certeza aquele seria um novo começo em sua vida. O ano que se iniciava seria, sem sombra de dúvidas, cheio de mudanças e fortes emoções.
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Ivan Volpe | um já se foi
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