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Não que haja nada errado com issoSegunda, 18 de Junho de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Apesar do que muita gente acredita, existem dois fatores da noite que não combinam de forma alguma quando misturados. Um deles é o bar de sempre, o outro é o amigo de sempre. Deus sabe e o garçom é testemunha, eu passo muito tempo no bar de sempre com o amigo de sempre. Ou os amigos de sempre. O problema é justamente esse. Quando algo foge da rotina, por mais raro que isso seja, o amigo de sempre, como um mago vidente, percebe.Para garantir, utilizo o plural. Os bares de sempre, com os amigos de sempre. Assim, por análise combinatória, as probabilidades de dar merda são menores. Mas é lógico que você que já passeia por essa coluna já faz algum tempo, já está esperando que algo dê fundamentalmente errado. E as coisas vão dar errado. Sendo essa a expressão máxima da verdade, porque fugir? Quando eu entrei no bar de sempre com o amigo de sempre, notei que algo estava fundamentalmente errado. As mulheres estavam me olhando. Quisera eu dizer que isso é normal, mas eu não poderia enganar ninguém com essa boa lorota de machão. Era diferente. Tanto que em dado momento, eu ouvi o que poderia chegar muito perto de “Olha, é ele mesmo”. Será que meu livro está fazendo mais sucesso do que eu esperava? Aliás, será que ele está fazendo algum sucesso? Preferi pensar que não e deixei a noite escoar no ritmo de sempre. Copo atrás de copo, conversando com meu amigo. Provavelmente eu estivesse fora do ar ou já ficando levemente embriagado, mas eu senti de verdade que mulheres me olhavam. Até um determinado “Oi, tudo bem” eu acho que recebi no meio do percurso, mas eu dispensei essa sensação bizarra facilmente. Não, elas não estão puxando assunto, inútil enganar-me. Aí ficou difícil ignorar. Saindo do banheiro, ela me olhava nos olhos. - Oi, tudo bem? Assim, cara a cara, olho no olho fica mais difícil ignorar. Com travessão e letra maiúscula, praticamente impossível. - Oi... – respondi com o meu proverbial charme instantâneo e reflexos rápidos para aproximação do sexo oposto. Ela academicamente discorreu sobre as orientações sexuais, a vida noturna, as artes, a música e a dança, muito para meu interesse que cuidadosamente embalei cada opinião dela com olhadelas no decote e medições do tamanho da saia. - ... e, enfim, eu sei que não é bem a sua praia, mas eu queria mesmo te conhecer. Sabe, eu te vi aqui na semana passada e achei que você dança tão bem.... Tóin!! Dança? Eu? Como assim? Dançar? Eu? - Dançar? Eu? E ela persistia, esperançosa, tadinha. - É, você estava arrasando, dançando. Ah, desculpe, não deu para não olhar. Gostei mesmo, sabe? Queria saber se... Olha, eu normalmente não faço isso, mas eu queria dançar com você. Não foi muito convicto que eu tentei escapar. Eu sei que tenho dois pés esquerdos, mas não estou aí para dispensar um rala-coxa assim tão facilmente. Mesmo assim, tive que ser honesto, uma vez que nas minhas andanças, descobri que esse tipo de mentira tem pernas muito curtas. - Você tem certeza que quer dançar comigo? Olha, eu não sou muito bom não... Ela me pegou pelo braço e levou para a roda dela. - Olha, meninas, é ele não é ele? Aqueles quatro pares de olhos, quatro pares de peitos e quatro decotes abriram-se em sorrisos esfuziantes. - É sim, é ele sim, com certeza. - Eu dançando? - Sim, a gente viu sim, semana passada, na sexta feira... E eu nem saí de casa na sexta feira. - Dançando muito bem... - Tão bem... - É, com o seu namorado... Pausa. Eu nunca, jamais negaria assim de bate pronto negaria ter dançado muito bem no bar para impressionar as mulheres. Eu não tenho habilidades para impressionar mulheres, então qualquer oportunidade de abrir novas fronteiras e abrir novos zíperes seriam muito bem vindos. Já o fato de eu estar me esfregando em outro homem, eu não poderia assumir assim tão facilmente. Não que haja nada errado com isso, mas definitivamente, não é minha praia, nenhuma possibilidade, de forma nenhuma, sob nenhuma hipótese e nem sob tortura. É por isso que eu rapidamente respondi: - Mas eu não estou namorando... Ok, eu confesso, poderia ter estabelecido uma masculinidade mais ampla, irrestrita e menos dúbia. Mas, poxa, eram quatro pares de pernas. Quatro pares de olhos. Quatro decotes. Quatro decotes é mais do que o homem pode esperar. E muito mais do que ele pode lidar. Só quatro decotes poderiam fazer um hetero assumir ares homossexuais. Na minha cabeça tudo estava incrivelmente bem planejado: concordar com tudo, tentar fingir que eu sei dançar, me esfregar nela a noite toda, emendar um ‘mal entendido’, expressar uma visível heterossexualidade no ouvido dela e prensá-la contra a parede. O que poderia dar errado? Tudo. É aí que entra o amigo de sempre, me abraça por trás e, achando que está sendo todo engraçadinho me estala um beijo na bochecha e diz: - Meu namorado não é gato? Precisaram chamar a polícia para eu para de socar o imbecil.
coisas que acontecem por aí sempre acontecem com
Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 2 sublimes almas
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