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Na Mesa com MadonnaSegunda, 8 de Janeiro de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Quando Luiz acordou, percebeu estava com a bexiga a ponto de explodir. Instintivamente, inclinou com violência seu tronco para frente, para se levantar da cama.Esse foi seu terceiro erro da noite: deu de cara com a mesa do bar. Somente depois da pancada foi que percebeu, da pior forma possível, que havia pegado no sono sentado. E não deitado. (Terceiro erro porque se você acorda sem saber onde está e, na seqüência, enfia a cabeça em um pedaço de madeira, deve ter feito algo de muito errado anteriormente. E insistido no erro, claro.) Fechou os olhos e tentou se situar. A primeira coisa seria tentar lembrar onde estava. Não precisou de muito esforço para perceber que estava em um bar que nunca havia visto antes. Aliás, não precisou de esforço nenhum, apenas visualizar ao seu redor. Na sua mesa havia um copo americano meio vazio (ou meio cheio, dependendo do ponto de vista do observador) com conhaque. - Merda, um copo meio cheio de conhaque! Que merda! - exclamou Luiz com uma lógica que subverteu tudo o que Lair Ribeiro pregou um dia. O copo estava meio cheio. Isso era inteiramente ruim na cabeça de Luiz. Por vários motivos. O primeiros deles é que, provavelmente, ele devia ter ingerido o que faltava no copo. Isso já seria suficientemente ruim se Luiz não tivesse a lógica do "paguei, preciso consumir". Ou seja, ele tinha de beber o que faltava. - Merda! Merda! Merda! - disse, antes de virar goela abaixo o que faltava do conhaque e continuar a tentar reconhecer o ambiente. Completavam a mesa outro copo de conhaque - esse, por outro lado, meio vazio - que devia pertencer ao segundo ocupante da mesa e o próprio segundo ocupante da mesa. Era um sujeito com o cabelo desbotado, uma cara igualmente desbotada, um batom vermelho nos lábios e ao redor deles. Luiz olhou-o com surpresa. Luiz olhou-o com dúvidas. Luiz olhou-o com náuseas. Luiz ganhou um beijinho alado de volta. E ele ia abrir a boca para esclarecer a situação quando a bexiga o atacou mais uma vez. Precisava mijar. - Moço, saberia me dizer... - Madonna. - Como? - Madonna. Me chame de Madonna. Você me cedeu seu conhaque, pode me chamar como os íntimos me chama. Ou melhor, pode fazer o que quiser comigo - assim como os íntimos fazem comigo. - Olha... bom... Madonna, onde é o banheiro? - Ui! - Como? - Sempre que me chamam de Madonna me dá um arrupio! Ó meu braço! - AI! - Viu? Viu? - Vi. Mas não preciso er... encostar tanto. - Dicupa! - disse Madonna, fazendo biquinho e com voz de criança. - É... mas... - recomeçou Luiz. - Não vai dar pra segurar! Não vai dar pra segurar! - informou a bexiga de Luiz, que começava a imaginar que se conseguisse escalar até o coração, talvez chegasse à boca ou ao nariz e, de lá, poderia se aliviar. Luiz se empertigou. - Me diga, onde é o banheiro? - Tá vendo aqueles garçons lavando o chão? Pois bem, atrás deles. Em um primeiro momento, Luiz olhou para os garçons com surpresa. Em seguida, olhou com atenção. E, depois de ganhar um beijo alado de um deles, olhou com preocupação. O chão estava ensaboado. Entre Luiz e a porta do banheiro havia, pelo menos 8 metros a serem percorridos. Luiz calculou a situação e suas chances. Dificilmente conseguiria chegar ao banheiro sem escorregar. Se escorregasse, dificilmente conseguiria continuar em pé. Se caísse, a chance de bater a cabeça em algum objeto pontiagudo e rachasse o crânio era imensa. Não sabe bem como terminou o raciocínio, mas falou em voz alta algo que, se alguém tivesse ouvido, soaria como crítica cinematográfica. - "Menina de Ouro" é um lixo mesmo. Enquanto pensava em urinar nas calças, sentiu uma pontada dupla em seu organismo. A bexiga quase explodia. E o coração não parecia muito bem. Luiz não sabia, mas a sua Bexiga, neste instante, se apoiava no ventrículo esquerdo de seu Coração, rumo à garganta. Descartou a possibilidade de mijar nas calças com um raciocínio esquisito. - Estou quase morrendo. Meu coração vai parar a qualquer momento. Se eu empacotar logo depois de mijar nas calças, quando encontrarem meu corpo, ficarei conhecido como Luiz, o Mijão. Ou, pior, o Mijão Luiz. Entre esse pensamento e alguns outros, percebeu que Madonna, agora retocando o batom na parte de fora dos lábios, usava Havaianas. Calculou a probabilidade de ela atravessar o salão sem escorregar. Chegou a uns tímidos 23%. Era o suficiente. - Escuta, Madonna... - Ui! - Então... lembra que você disse que eu poderia fazer o que quisesse com você? - Ui! O que o neném qué? - disse Madonna, repetindo o lance de imitar voz de criança e fazer biquinho. 20 segundos depois, um travesti conhecido como Madonna era visto, em um bar sem nome no centro da cidade, tentando atravessar um salão ensaboado com Luiz em suas costas. 23 segundos depois, um travesti conhecido como Madonna era visto estatelado no chão de um bar sem nome no centro da cidade retocando a maquiagem ao redor dos lábios. 2 horas e alguns segundos depois, era extra-oficialmente identificado o homem que sofreu um acidente quando tentava chegar ao banheiro usando um travesti como meio de transporte e que continuava desmaiado. No hospital, o doente do quarto 12, urinado, com o coração levemente descaído para a direita e com a bexiga parcialmente para fora - que aparentemente saiu pela boca no momento da queda - ficou conhecido como o Mijão Luiz.
psicografado por
Sérgio Vinícius | 4 comentários
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