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Na DelegaciaSegunda, 21 de Janeiro de 2008* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor O delegado Nogueira não estava gostando das coisas. O plantão de sábado estava sossegado demais - até agora, somente três boletins de ocorrência.O primeiro, feito às 6h12, era sobre a perda de todos os documentos pessoais de um tal de Sandro Sinval. Às 7h40, o segundo boletim dava conta de que um tal de Sandro Sinval havia sido pego dirigindo sem documentos, ainda na rua da delegacia - havia sido liberado em seguida, mas o carro havia ficado no pátio do DP. Às 7h50, era o horário do último boletim de ocorrência. Nele, informações de que um tal de Sandro Sinval havia sido conduzido à delegacia depois de tentar passar por cima da roleta do ônibus - coisa que havia sido feita com a anuência do cobrador. O problema é que ao tentar fazer isso, se enroscou na roleta e caiu de costas. Durante a queda, tentou se segurar na campainha do ônibus e a arrebentou para baixo. Um senhor que dormia no último banco acordou de supetão com a sirene e teve um princípio de arritimia. O tal de Sandro Sinval, na queda, acabou por cair sobre um rapaz gótico que estava atrás dele. O choque foi tão grande que, na queda, o gótico perdeu suas duas lentes de contato vermelhas, em forma de estrela. Entre Sandro e o chão, havia um gótico. Entre a cabeça de Sandro e o teto do ônibus, uma senhora de quase 50 anos, que usava uma saia e se sentiu invadida pelo rapaz. Quando a confusão começou, uma patrulha passava perto do coletivo e, vendo a movimentação, resolveu intervir. Os soldados Danúbio e Stênio haviam sido, coincidentemente, os mesmos a enquadrar Sandro por dirigir sem documentação. Para evitar um linchamento ou, pior, uma briga envolvendo uma senhora de saias, um gótico sem olhos vermelhos em forma de estrela e um velho com arritmia contra um pretenso pulador de catraca, os policiais resolveram encaminhar nova e rapidamente Sandro ao DP, para prestar depoimento por algo como “balbúrdia pública” ou coisa assim. Agora, Sandro havia desistido de ir para casa. Dormia sobre algumas cadeiras, próximo ao delegado Nogueira, que continuava achando tudo muito estranho. A serenidade estava estranha. Três boletins de ocorrência com o mesmo envolvido em menos de 2 horas. Nogueira, que já havia visto de tudo nessa vida, menos gato com cabeça de leão, estava desconfiado. O plantão acabava em menos de 20 minutos, mas ainda se preocupava. Sabia que algo estava por acontecer. Foi então que, vindos da porta, ouviu gritos. Olhou para Sandro, que dormia profundamente. Pensou, feliz, que desta vez o rapaz não estava envolvido. Foi então que os donos dos gritos entraram. Nogueira olhou para o relógio. 18 minutos. Entraram pela porta principal da delegacia dois policiais. Eles levavam, aos trancos e barrancos, um cidadão com um corte de cabelo altamente esquisito, um senhor de mullets que se identificou mais tarde como Afrânio, um rapaz com uma meia-calça na cara. Logo atrás deles, vinha o gótico sem os olhos vermelhos em forma de estrela. Quando conseguiu aquietar aquela galera, Nogueira começou a tomar os depoimentos. Afrânio era um barbeiro. Um barbeiro de taleto duvidoso, a considerar o mullet. Enquanto cortava o cabelo do cidadão que adentrou à delegacia com o corte altamente esquisito - que mais tarde descobriu-se chamar Joné -, sua barbearia foi invadida pelo da meia-calça na cara, que dizia ser um assalto. Os policiais, em ronda pelo lugar, viram a confusão e também invadiram o salão. Rapidamente, dominaram a situação, controlaram o rapaz da meia e o levaram à delegacia. Afrânio rumou também à delgacia, para prestar depoimento. O do cabelo ridículo acompanhou Afrânio. Já o gótico entrou na DP por engano mesmo. Sem suas lentes de contato, não enxergava quase nada. Nogueira olhou para o relógio. Faltavam 6 minutos. Tentou agilizar tudo. Colocou Afrânio, que ainda segurava suas tesouras e uma escova de cabelo bastante surrada, próximo de Sandro, que agora, acordado, assistia à cena com pouco interesse. Em seguida, tirou o gótico e Joné do recinto. Levou ambos até a calçada. Colocou a mão do gótico no braço de Joné e deu instruções explícitas para que Joné guiasse o gótico cegueta. (Minutos depois, era visto pelas ruas algo que parecia ser o casal gay mais estranho do mundo. Um gótico cego e um indivíduo sem qualquer resquício de cabelo do lado esquerdo da cabeça e vários chumaços esparços do lado direito, atravessavam a cidade de mãos dadas e cantando, a plenos pulmões, “Like a Virgin”, da Madonna.) Depois de colocar os dois para fora, Nogueira fichou o rapaz da meia na cabeça e o encaminhou ao xilindró. Liberou os policiais. Olhou para o canto da delegacia, onde estavam Sandro e Afrânio. Ou melhor, onde Afrânio terminava de cortar, cuidadosamente, o cabelo de Sandro. Nogueira sorriu. Faltava 1 minutos para acabar o plantão. Nada mais poderia acontecer. Passaria o bastão para o delegado Pantufo. Até havia se afeiçoado a Sandro e por isso se despediria. Daria um tapa nas costas de Afrânio e rumaria à casa. Quatro minutos depois de assumir o posto, Pantufo fazia o primeiro B.O. do dia. Sandro Sinval era acusado de se recusar a pagar pelos serviços de barbearia prestados por Afrânio. O acusado alegava que havia sido apenas um “retoque”. Pantufo, ao notar a coincidência e recorrência dos nomes no boletins de ocorrência anteriores, respirou fundo e concluiu que seria um longo plantão.
psicografado por
Sérgio Vinícius | 6 comentários
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