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Morto-vivo

Terça, 29 de Abril de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Cirilo acordou e logo percebeu que alguma coisa diferente estava acontecendo. Sobre seu corpo havia uma garota nua. Pela primeira vez na vida, despertou transando.

Pensou um pouco sobre o assunto e se lembrou do motivo de tão improvável cena estar acontecendo. Tinha pegado no sono durante a transa - o que acabava com o eufemismo existente na expressão "dormir com alguém".

Ele nem sabia por quanto tempo havia dormido, mas a moça parecia não ter percebido seu sono. Ou, se tinha percebido, resolvera dar continuidade ao ato assim mesmo.

Apesar de ter rapidamente solucionado o primeiro mistério que enfrentou ao acordar, algumas coisas ainda intrigavam o Cirilo.

“Nós estamos no banco traseiro de uma Brasília ou é impressão minha”, perguntou o rapaz.

“É isso, é isso”, gritou ela, deixando Cirilo sem saber se era uma resposta afirmativa ou se era apenas o clímax chegando.

Como a transa estava boa, Cirilo até pensou em deixar rolar e apenas curtir o momento. Mas não resistiu e teve que fazer mais uma pergunta.

“O carro está andando? Pra onde estamos indo?”

A pergunta foi rapidamente respondida. Não pela mulher, mas pelo motorista. Um senhor de boina e bigode.

“Era para o hospital. Mas parece que você já está bem.”

Diante da perplexidade do Cirilo, o homem da boina explicou a situação.

“Essa aí que está em cima de você parou meu carro no meio da rua e pediu ajuda. Disse que havia um homem morto, que você havia morrido enquanto estavam trepando.”

“Mas eu estava apenas dormindo...”, retrucou.

“Mas pelo jeito você dormiu umas oito horas. E de pau duro. Como dizem que quem morre de pinto duro fica com a ereção para sempre, achamos melhor te levar para um hospital”, explicou o bom homem.

Por mais estranha que parecesse aquela manhã de segunda-feira, Cirilo achou melhor acreditar na história do motorista. Nada poderia explicar melhor o fato de ele ter acordado transando com uma desconhecida no banco traseiro de uma Brasília em movimento guiada por um bigodudo de boina.

Só não entendia muito bem motivo de a mulher continuar a cópula com ele no interior da Brasília mesmo achando que ele estava morto.

“Mas nem todos os mistérios desta vida podem ser respondidos”, pensou Cirilo em voz alta.

Ao que a mocinha respondeu, de novo enigmática:

“É isso, é isso.”     

Mentex e Costela | 4 comentários