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Morfínico Toalético Semiótico

Terça, 27 de Março de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Ao leitor começo por desculpar-me da minha natureza nerd semiótica. Mas, quer saber? De perto todo mundo é nerd.

Voltando às reflexões de toalete, se tem uma coisa que me irrita são as plaquinhas indecifráveis de masculino e feminino em bares, botecos e restaurantes – em particular restaurantes caros e hiperfashion. São fundamentalmente idiotas tentando inovar na “linguagem” e criando aquela situação constrangedora. Sol ou Lua? Azul ou Amarelo? Triângulo ou quadrado? Yin ou Yang? Oras, não tem nada melhor para fazer? Será que é elegante não saber em que banheiro entrar? Mais elegante ainda é ter que pedir indicação do garçom?

Outro dia fui a um elegantérrimo restaurante tailandês, evento corporativo e talz. Após comer quitutes nunca antes vistos, com temperos que eu não saberia reproduzir o nome sequer foneticamente, mas algo como chuing-shuéin e hortelã. Achei tão inovador quanto estúpido o cardápio escrito em tailandês, que demandava perguntar individualmente o que significava cada um dos 12 pratos do ٣٤٩ڍکڶﻼ (ou seja, do “menu”). Quando achei que bastava de assistencialismo gratuito, fui ao banheiro reciclar os 7 chopes que tomei enquanto esperava os 50 convidados que perguntavam, repito, individualmente, acerca dos 12 pratos, a fim de escolher um prato estranho com um molho indizível. Para minha surpresa os dois banheiros tinham uma série de sereias na porta com uma inscrição ٤٩ڍک٣ڶ para diferenciar masculino de feminino. Solução? Perguntar ao garçom, individualmente.

Pondero muito sobre como os signos se desgastam ou são gastados ao longo do tempo pela sociedade de consumo, que igualmente os consome – por signos significando palavras, imagens, logomarcas, comidas estranhas com temperos indizíveis, laranja com verde, jeans semi-bag e por aí vai. O povo consumidor, afoito por devorar novos signos, recebe de braços abertos qualquer axé-music com dança da garrafa que pintar no horizonte. Quem não lembra do lançamento do carro Fox na copa de 2002, quando aquela propaganda pentelha com fundo musical “Pela Luz dos Olhos Teus” de Vinicius, associou, sem volta, a música ao produto. Não sei o leitor, mas sendo um fanático que assistiu todos os jogos da copa, não suporto mais a ex-bela música do poetinha. Ou do brinquedo que se apropriou de um dos maiores clássicos do samba paulista e, conseqüentemente, ainda hoje, tem gente que me corrige quando desafinado cantarolo Adoniran na mesa de bar “Sou filho único, tenho minha casa pra olhar” assegurando que o certo mesmo é “...quero Big-Trem para brincar”. E ainda olham com aquela cara de puuuta, como esse cara é inculto, ainda bem que estou aqui para ele não passar vergonha.

Mas nem tudo são críticas ácidas ao mau gosto dos donos de botecos, restaurantes e afins. A vantagem de toda esta baboseira é que, enfim, temos, homens e mulheres, uma excelente desculpa para entrar “sem querer” no banheiro errado sem o menor pudor.

    

O Aloísio que não é do campo é o Aloísio da Cidade | 5 leitores já mijaram neste póst