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Mooca, princesinha do mar
Mooca, princesinha do mar
Segunda, 5 de Março de 2007
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
Por conta dos efeitos do aquecimento global, em 2057, São Paulo é uma das cidades litorâneas mais requisitadas de toda a Ameriqueta.
Isso mesmo, por questões práticas, os continentes foram todos revistos por volta dos anos 2040. Agora, temos apenas quatro grandes pedaços de terra, já que todo o resto está submerso.
As Américas do Norte, Sul e Central são a atual Ameriqueta, território que vai do antigo Texas à ex-Santa Catarina.
Dentre todos os remanescentes, a Oceania tornou-se o maior território em extensão, porém continua sem grandes atrativos, a não ser que você goste de churrasco de coalas e cangurus. Sim, concordo, são uma delícia, se servidos bem crocantes.
Já a Europa transformou-se num arquipélago, o Djou Djou Santa Gabriela. Não, definitivamente não se sabe que mente doentia batizou os novos continentes.
Surprendentementemente, a Ásia chama-se Ásia mesmo e pouco mudou.
A antiga África não existe mais, se bem que muitos historiadores contestam tal informação, dizendo ser puro preconceito o fato de todo o mundo ignorar o continente.
Mas de volta a São Paulo, a cidade até que lucrou com as novas características geográficas. Afinal, quem antigamente poderia imaginar que o bairro da Mooca seria conhecido como a nova princesinha do mar?
E o que dizer da imagem do Cristo Touro-Redentor na avenida Águas Espraiadas, o novo centro financeiro de Sampa. Mistura do antigo Cristo Redentor carioca com a escultura-símbolo de Wall Street, o Cristo Touro chegou a criar certa polêmica quando foi apresentado, mas com o tempo todos se acostumaram com a imponente obra. Afinal, quem resiste a um Jesus de 15 metros de altura, todo musculoso, com chifres, braços abertos e ainda por cima, bufando?
Com o tempo até a Liga Católica se rendeu e passou a vender miniaturas da imagem aos borbotões, arrecadando fundos abençoados para as causas abençoadas da Igreja.
No balanço final, as mudanças em São Paulo, com a repentina chegada das praias, podem ser consideradas positivas. Se a violência não diminuiu, apenas mudando de modalidade, passando das chacinas para os arrastões, ao menos agora os paulistanos estão um pouco menos estressados, podendo curtir um belo pôr-do-sol à beira mar, de dentro de seus carros, no trânsito, à caminho das periferias. O sol escaldante, muito mais potente do que no início do século e com seus temíveis raios cancerígenos, acabou por gerar uma grossa carapaça protetora nos pobres paulistanos, que, ao se adaptarem, também assumiram uma forma meio corcunda no andar.
Embora isso não tenha ocorrido da noite para o dia, em seu acordar evolutivo de sonhos inquietantes, todo paulistano agora é uma espécie de Gregor Samsa, metamorfoseado num gigantesco e repulsivo inseto...
Como diria a minha mãe, pobre não tem sorte, nem com praia e em 2057...
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