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Mitologia pós moderna

Segunda, 12 de Março de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Ciclops tinha apenas um olho. Eu tenho apenas dois. E míseros cinco sentidos. É pouco, muito pouco. Quero mais. Quero um sexto sentido, para perceber coisas que estão acontecendo em outros lugares. E um sétimo sentido, e um oitavo, e um nono... Ah, quero mil sentidos. Quero ficar a um fio de cabelo da onisciência. É a angústia de perder algo importante ou interessante, ou apaixonante. É a raiva de ler um livro e não poder saber o que acontece no cinema. A angústia de sentar na frente da televisão e imaginar o que está acontecendo no bar. É encher a cara com os amigos e se perguntar quem estará no MSN. É grudar no MSN e apenas sonhar nos braços de quem estará a ex-namorada... São tantas coisas fascinantes acontecendo ao meu redor, como não desejar ter acesso a tudo e todas? Ver tudo, ver as pessoas, ler os livros, ouvir as músicas, sentir as emoções, ver as obras de arte, sentir os cheiros, os amores, as dores... Como seria o mundo todo ao mesmo tempo? Seria digerível? Será que daria para absorver todas as informações ao mesmo tempo? Pela óbvia ganância do ser humano, depois da onisciência, a lógica pediria por onipossessividade. Já que está tudo ali ao alcance dos olhos, porque não utilizar os dedos? Ler todos os livros, ouvir todas as músicas, tocar todos os instrumentos, sentir todos os perfumes, todos os gostos, todas as texturas... Seria necessária uma dimensão paralela, onde as coisas não tenham apresentação material para que fosse possível tê-las todas, para que as muitas coisas do mundo fossem guardadas. E depois, de que tanto vale ter tudo se não se pode dividir? Alguém com tantas histórias para contar não deveria fazer outra coisa da vida a não ser distribuir seus conhecimentos. E quem teria tempo para ouvir? Quem teria paciência? O tempo teria que ser elástico. Ou ao menos não-linear. Claro que eu quero ter tudo isso e ser tudo isso. O mundo bate na minha porta e chega por e-mail, então eu quero muito mesmo poder ser, ver, pensar e entender tudo. E quem seria eu se fosse onisciente, pudesse viver em uma dimensão paralela onde o tempo não existe, as coisas não fossem materiais e as pessoas me consultassem em busca de sabedoria? Ops. Acabei de fundar minha própria religião.

coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 2 sublimes almas