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Mirem-se no exemplo de Yul Brynner

Sexta, 18 de Maio de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Quando chegaram à minha cabeça, as minhocas da crise dos trinta encontraram posseiras mais antigas: as entradas. Não é de hoje que as percebo ao olhar no espelho e acompanho, resignado, seu avanço por sobre meu crânio.

Amigos dizem ser apenas (ai, ai, ai) coisa da minha cabeça, que não conhecem ninguém com mais cabelo. Mas, você sabe, ninguém repara em você como você. Em você talvez, mas não em mim. Nas raras vezes em que aconteceu, olhei os fundilhos para me certificar de que não estavam sujos. E como ninguém presta assim tanta atenção, é difícil ao olhar externo perceber as baixas dos soldados capilares diante do exército da calvice. Exército invisível, de poderio muito mais devastador que aviões, submarinos e outros que escapam ao radar. Se Hitler pretendia um reich de mil anos, ao invés de Mussolini, era a ela que deveria ter se aliado. Desde a aurora dos tempos, esse terrível monstro aterroriza homens, sem fazer distinções. Derrotou, inclusive, o aliado italiano do führer.

Mas eu percebo os fios se escasseando no começo de minha testa. Percebo e reconheço sua valentia: não vão se entregar tão fácil. Já mandei reforços, mas a ajuda não funcionou como deveria. O remédio contra a queda de cabelos teve como efeito colateral outra, que a mim me preocupa muito mais. Assim, terão que se virar sozinhos, com as minúsculas baionetas que eu sei que carregam.

Se a derrota for mesmo inevitável, em reconhecimento aos companheiros tombados, tenho certeza que o restante de meus cabelos não se importará em também dar adeus ao meu couro. Não hesitarei em raspar todos, mirando-me no exemplo de Yul Brynner. O brilhante ator disse: “De um modo engraçado, raspar a cabeça representou a liberação de um monte de vaidades estúpidas. Simplificou tudo para mim, pode ter aberto várias portas.” De fato, o grande intérprete de “Sete homens e um destino” só alcançou o grande sucesso depois que se desfez das ralas madeixas que lhe restavam.

A verdade é que, se a calvice é poderosa, meus cabelos parecem ser em número suficiente para empatar a peleja. Se não serei cabeludo como Walmor Chagas ao chegar à sua idade, também não precisarei utilizar-me do expediente de seu colega americano. Minhas entradas devem avançar, mas não ao ponto de me tornar uma referência. Nunca falarão de mim como “aquele cabeçudo careca”. No máximo, como “aquele cabeçudo com entradas”.

Como não tenho bola de cristal e o Yul Brynner não está por perto, não dá para saber se me tornarei um daqueles de quem as mulheres gostam mais. Mas, se isso acontecer, repito, raspo tudo (ou o que restar). É o mais digno a ser feito. Nunca vi peruca que não parecesse um rato morto. Nunca vi implante de cabelo que não deixasse a pessoa parecendo uma daquelas batatas colocadas na água. E nunca, nunca mesmo, dei de cara com um tampão sem ter que conter gargalhadas.

Você talvez não esteja familiarizado com o termo, mas certamente sabe de que se trata. Configura-se tampão toda vez que o camarada deixa alguns dos seus parcos fios crescerem mais que os outros e, com a ajuda de gel, brilhantina ou mesmo alguma água, penteia-os sobre a calva. Assim, os adeptos do tampão têm a ilusão de que seu aeroporto de mosquitos não será notado. Uma técnica que, sem dúvida, requer fé. Não à toa, um de seus intusiastas mais conhecidos em nosso país é o Padre-Cantor Antonio Maria.

Se de fato me tornarei careca, só o tempo dirá. (Se não quiser esperar tanto, talvez um dermatologista possa me adiantar a resposta.) Mas uma coisa posso afirmar: posso perder o cabelo, a dignidade jamais.

Aquela coisa toda por Leandro Leal | 8 descendo o pau