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Minhocão Paulo Maluf

Sábado, 23 de Junho de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Ao ver a sua grande obra em São Paulo, o Minhocão, virar cenário principal do filmaço brasileiro Não Por Acaso, a emoção foi forte demais para a sua idade. Paulo Maluf morreu. Um enfarte mandou dessas pra melhor o político paulista mais polêmico da história. Ao desencarnar, Maluf surpreendeu-se logo na recepção ao mundo dos mortos.

É que Deus também tem os seus caprichos. E para receber Paulo Maluf, o todo poderoso não pensou duas vezes e escolheu Mário Covas. Já falecido há uns seis anos, Covas conhecia bem as funções que Maluf teria de exercer. E caberia a ele orientar o novo inquilino na rotina atual.

- Bem-vindo Maluf. – Saudou Covas.

- Mário Covas? Achei que você estaria no inferno e não aqui no céu... – Disse Maluf ainda guardando aquele tom de voz peculiar.

- Como sempre você tem muito a aprender. Céu e inferno não existem. Estamos num outro plano, mas não há essa separação toda. Teremos de conviver novamente. Espero que bem e, por isso, estou aqui...

- O que você faz por aqui? – Questionou Maluf.

- Fui incumbido de recepcionar alguns desencarnados. Mostrar nossa rotina e ajudá-los a entender o que está acontecendo.

- Te elegeram para isso?

- Não Maluf, aqui não há eleição. De acordo com o nosso grau evolutivo e vocacional somos designados para determinadas funções. Meu trabalho é levar as almas para o caminho ideal. Enfim, continuo seguindo minha vocação de anos...

- Mário Covas, quanta prepotência. Todo mundo sabe que de caminho você não entende nada. Ao contrário de mim, que fiz a Água Espraiada, a Imigrantes, a Jacu Pêssego, o Elevado Costa e Silva...

- É verdade, o Elevado Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão. Aliás, eu ganhei o nome do Rodoanel em São Paulo. Agora, eles poderão dar créditos pra você também e mudar o Elevado Costa e Silva para Minhocão Paulo Maluf. Que ironia do destino você morrer por causa daquilo, não? - Provocou Covas.

- Ironia do destino é encontrá-lo. Por acaso estou nas Ilhas Cayman?– Rebateu Maluf.

- Pára com isso Maluf. Aqui essas baboseiras que você falava não têm mais valor. Com o tempo você vai perceber o que realmente é importante.

- Importante é discutir plano de governo. Quero fazer uma ampla reforma por aqui. Progresso... Onde já se viu: as pessoas estão morrendo lá embaixo e subindo pra cá sem ajuda médica. Eu vou trazer o PAS pra cá, com médicos especializados em saúde do defunto. Vou trazer o Cingapura, porque desde o minuto que cheguei até agora você não me mostrou meu apartamento...

- Daqui a pouco você vai querer até Furar-Fila por aqui... – Ironizou Covas.

- Não duvide de mim Mário Covas. As eleições que eu perdi me fortaleceram. Como diria o grande poeta brasileiro Gonçalves Dias, na sua Canção do Tamoio: “a vida é um combate, que aos fracos abate e aos fortes e aos bravos só pode exaltar”.

- A vida é um combate... Larga de ser cabeça-dura. Você não está mais vivo.

- Posso ser cabeça-dura, mas não sou bunda-mole.

- Ta legal, discutir com você não vai levar a nada. Nunca levou. Venha comigo que eu vou te mostrar sua nova missão. Analisamos suas vocações e achamos que você terá sucesso para cuidar de vacas e galinhas.

- Não baixe o nível do debate Mário Covas. Você está querendo ofender quem? Minha família?

- Não Maluf. Não me meça com a sua régua e pare de interpretar as coisas da sua forma. Estou me referindo aos seus projetos “Leve-leite” e “Frango nas escolas”.

- Ah sim, excelentes projetos...

- Pois bem. Você irá ordenhar vacas e também lidar com os frangos.

- Não, não e não Mário Covas. Não aceito ordens suas. Onde estão meus aliados da ditadura? – Perguntou Maluf.

- A maioria dos seus amigos da ditadura está cuidando dos porcos. É uma tortura pra eles, mas tem sido um aprendizado. A outra parte, nesse instante, está na sala de leitura, que todos têm direito a freqüentar. Canção do Tamoio, do Gonçalves Dias, é um dos mais lidos. Você vai gostar...

vem que é bão com a Rogéria | 8 vieram