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Marionetes e Ninfetas

Sexta, 15 de Junho de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Apague a luz. Vamos acender o abajur. Eu adoro o efeito, as sombras. Vejo-me na estante, não muito além de mim, sombras, tonturas, gargalhadas. Estamos tão distantes e num aconchegante sofá, por entre prosas porosas, corrosivos comentários, discutimos felicidades.

E o que te satisfaz?

Ah, olhar pela janela, ver a selva de pedra e perceber o imperceptível: eu nunca me imaginei aqui. E agora estou vivendo um presente não sonhado, um futuro que certamente não será brilhante, mas será meu e isso ninguém me tira. Os carros não param.

Afinal, de onde sai tanta gente?

Não sei. Sempre foi assim, e já sairam de minha porta anos 60, espelhos coloridos (dizem: pintado à mão) e a imensidão.  Pare. Não se engane: há bueiros querendo tragar-lhe logo no primeiro escorregão.

Ah vá, por isso inventaram o corrimão.

Essa foi boa!

O que mais sinto falta é da terra. Eu sei: tem terra aqui também. Mas não posso andar descalça. Lembra do que você me falou? Em São Paulo, as poças de água, na verdade, não existem. São poças de urina. Ooops... olha o poção de urina aí gente, eles urinam por todos os lados.

Na TV, como sempre, nada que acrescente. Puro creme das marionetes – que somos nós. Isso, desliga. Agora, abre a janela, vamos deixar a brisa entrar.

Do que falávamos? F E L I C I D A D E S...

Pois é, preciso sair pra dançar. Sabe: desopilar. É lindo porque podemos ir pra qualquer lugar. Afinal, em qualquer lugar ninguém nos conhece. Dançar, dançar, dançar. Como ninfetas alucinadas e sem nenhum agente psico-ativo. Livre.


Você sempre se deu super bem com você, né?

Acho que isso é uma das maiores felicidades. Se suportar em uma solidão, claro. Porque são passageiras. Não, não são passageiras: a solidão é uma passageira. Cabe você aceitá-la ou não. Mas o fato de ter aberto a porta e saído sem olhar pra trás me fez acreditar em mim.

É, eu continuo perdida nesse leque de oportunidades. Tantas assim, ó, não traz felicidade. Confunde. Mas confio no tempo. Isso é bom, mas não tente agarrá-lo. Cê sabe: voa! E não perca mais tempo com o passado. Ele passou e deixou doces lembranças, só isso. Não tenha medo de virar a esquina, de olhar para o céu e perceber que lá é o lugar das estrelas.

Estamos aqui pra fazer nossa parte.

Céu estrelado aqui é raro.



em prosa e verso por Mariana Menezes | Comentários