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Mãos à obra, jornalista

Sexta, 29 de Fevereiro de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

 “Pra esse tipo de massa, você tem que colocar dois baldes de brita. Não um, e sim dois. Quantas vezes vou ter que te falar?” A bronca parecia injusta. Não só por ser a primeira vez que o cara explicava aquilo, mas principalmente pelo tom de voz utilizado. Enquanto despejava outro balde de pedras na betoneira, o jornalista aprendia na prática que a profissão de pedreiro é bem dura. Também passava a compreender, empiricamente, que para ser patrão e funcionário, ao mesmo tempo, são necessárias posturas quase incompatíveis.

Misturou o cimento com água, brita e areia, virou a betoneira no carrinho de mão e levou até o local onde as ferragens estavam dentro das caixas de madeira. Orgulhoso, começou a preencher com a massa de concreto aquilo que seria uma coluna da sua futura residência. Na casa que se propôs a construir, seriam erguidas doze colunas, cada uma delas com sapatas de um metro de diâmetro e de profundidade.

Estava com a cabeça fervilhando de idéias. Erguer a sua casa com as próprias mãos era mais do que um novo desafio, era a realização de um sonho. Por isso, ao fim daquele dia, sentiu a boa sensação de missão cumprida. Apesar do forte cansaço, mais uma etapa da obra havia sido avançada.

Enquanto relaxava no banho, o jornalista se autopersuadia de que tudo corria bem. Após uma década de dedicação a assessorias de imprensa, sites e outros veículos de comunicação, sua nova ocupação exigia pré-requisitos interessantes: podia trabalhar de bermuda e camiseta, não pentear o cabelo, falar palavrão a todo instante e fumar no local de expediente. Além disso, ao término daquela jornada nunca mais ia pagar aluguel e, quem sabe um dia, contaria aos netos que ele mesmo havia construído a casa.

A análise parou por aí. Até alguns dias atrás, ele incluiria nessa relação de prós da sua nova atividade o fato de não ter patrão. Nos primeiros dias da obra foi uma maravilha, pois realmente acreditou que daria as ordens. Nos dias seguintes, já tentava se convencer disso. Entretanto, nos últimos, se esforçava ao máximo para relevar as atitudes do seu novo “chefe”, o pedreiro, como, por exemplo, as broncas desferidas por causa de britas.

Desde o início, o mestre de obras tentou desestimulá-lo e convencê-lo a contratar um servente. Alegava que faltaria força para tocar o trabalho. Mas o proprietário queria participar de todos os momentos da construção. Por isso, a teimosia, que anteriormente o ajudava a apurar fatos e a produzir reportagens, mais uma vez se fez presente.

Outro argumento era o de que a ausência de um servente nato garantiria uma boa redução nos gastos. O dinheiro era curto e a economia de, mais ou menos, R$ 30 por dia, ao longo de um semestre, abria a possibilidade de investir em um acabamento melhor para a casa.

O pedreiro teve de engolir a ausência de um ajudante à altura. Sincero, ele admite que sempre deixou claro em frases, posturas e lamentações que não concordava com a atitude do patrão. “Escrever no computador é mole. Agora, aqui na obra o bicho pega. Se vai trabalhar comigo tem que aprender, e fazer tudo direito”, afirmava sem papas na língua, numa atitude que de tão honesta beirava a inconseqüência, ou vice versa.

Ambos concordam que os dias não foram fáceis. Nos seis meses de trabalho incansável, o jornalista se dedicou a ponto de afirmar que o bom trabalhador da construção civil deveria ser o profissional mais bem remunerado entre todas as atividades. Mas a total ausência de didática do pedreiro, para ensinar os afazeres, o fez mudar de idéia. Eles tinham de receber a segunda melhor remuneração do mercado, pois a primeira deveria mesmo ir para o bolso dos bons professores.

Nem tudo, porém, foi sofrimento e divergência nessa parceria. Os dois lembram com satisfação do trabalho executado, das brincadeiras que surgiram e da troca de experiências que tiveram. “Hoje, ele sabe fazer uma boa massa para concretar e eu estou pegando o jeito de navegar na internet”, relata.

De acordo com o pedreiro, por mais que o outro fosse o patrão, a responsabilidade da obra era dele. “Eu tinha que fazer a coisa dar certo. E cada um tem um modo de lidar com isso”, disse. No churrasco que marcou o enchimento da laje, a emoção foi tanta que o mestre de obras tentou, inclusive, se redimir, amenizando o tom das críticas. “Até que escrever no computador não é tão fácil assim”, brincou. 
    

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