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Mão na Parede (não é um assalto!)

Terça, 16 de Janeiro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Mijar. É sempre uma boa hora para refletir. Ainda mais para botequeiro que, com a quantidade de vezes que visita o mictório, se não arruma coisa para fazer, morre de tédio antes mesmo da cirrose atacar. Eu sou um destes. 

Dentro deste universo e da infinidade de assuntos que visitam a cabeça durante a micção, uma coisa sempre me chamou a atenção: caras que mijam com a mão na parede. Quando criança olhava admirado aqueles adultos enormes com uma mão segurando o instrumento e outra estirada na parede, igual uma lagartixa no azulejo branco. Me parecia algo grandioso, que só adultos podem fazer: uma deselegância despojada, uma rudeza primitiva, sei lá. Algo que me chamava a atenção e eu pensava quero ser igual quando crescer e, obviamente, quando tiver cabelinhos no meu instrumento. 

Bom, cresci. Os cabelinhos cresceram. E eu tentei fazer panca com a mão estirada. Nos bares, botecos, meretrícios, só dava eu de mão estirada fazendo pose sei lá pra quem. Mas aí é que tá: não saía natural. Por mais que eu tentasse, não saía. Observava os outros, felizes da vida, como se estivessem estado assim a vida inteira, desde o útero, com a mão espalmada apoiada – na barriga da mãe em vez do azulejo branco. Cotei estatísticas, firmei padrões, e não entendi: o que difere um homem do outro a ponto de ter uma postura tão radicalmente diferente na hora de uma necessidade tão elementar? O fato é que eu devo confessar: não gosto de mijar com a mão na parede. 

No começo achei que era coisa de caminhoneiros. Muito mais rude que um caminhoneiro nas BR brasileiras, hum, difícil. Mas nem todos os caminhoneiros o fazem e nem todos que possuem o hábito eram de fato caminhoneiros. Pensei que poderia ser algum atributo físico, por exemplo, caras meio gordões e grandes – o que em geral bate com o perfil dos caminhoneiros, explicando o mal-entendido inicial. Porém encontrei alguns magrelos com o mesmo estranho costume, e pareciam mais naturais ainda que os brucutus. Procurei então geografia da região de nascença, ascendência, etnia, fiz mil levantamentos e pesquisas – nesta altura o leitor imaginar que em meu trabalho de campo passei alguns apuros, ninguém levava muito a sério minha pesquisa e trouxe na bagagem diversos olhos roxos e alguns números de telefone. Mas não fui capaz de estabelecer um padrão sólido, científico. 

Pensei, talvez, se não seria uma questão de família, DNA, kriptonita, genoma ou mutação radioativa césio 137. Pensei se não era um código de uma sociedade secreta. Pensei em um monte de outras baboseiras indescritíveis que nosso cérebro cria sob efeito de algumas garrafas de breja que nos levam ao campo de pesquisa. 

Mas o mais importante, pensei, é que as reflexões de toalete não podem ter resposta certa. Senão, acaba-se com uma das maiores motivações da manguaça, que é responder continuamente questões não respondidas ou não respondíveis. Criar hipóteses físicas mirabolantes, ter idéias geniais para ficar rico instantaneamente – fácil igual miojo no microondas –, ver belas sereias no bar, fazer amigos de uma noite, fazer amigas de uma noite, bater um samba antigo enrolando a letra até, em êxtase, cantar em coro o verso todo errado, mas com tanta fé que o bar inteiro acredita. 

E você? Acredita em reflexões de toalete?



O Aloísio que não é do campo é o Aloísio da Cidade | 4 leitores já mijaram neste póst