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Maite

Quinta, 29 de Novembro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Maite era uma cantora mexicana em franca decadência, que já estava de saco cheio daquele mundo; das pessoas ao seu redor e do marido viciado em programas de compras pela TV (uma versão Shop Tour mexicana), que torrou quase toda a sua grana em produtos bizarros.

A um passo do fundo do poço, foi pedir ajuda ao seu único e verdadeiro amigo, Tony, dono do Tony´s Pub. Chegou ao boteco, sentou-se à mesa de sempre, pediu uma tequila das boas e abriu um livro, enquanto esperava Tony apartar uma briga entre dois clientes.

Aleatoriamente, abriu na página 27, onde leu o título “A mulher mais linda da cidade”. Sua cabeça voltou à década de 40, quando tinha 20 anos. Maite se identificou com aquela personagem – uma moça linda que não se achava nada bonita e vivia se “enfeando” com acessórios um tanto exóticos como grampos na orelha, parafusos no nariz e sacos de juta na cabeça. A personagem tinha sido uma das muitas amantes de Bukowski, o autor do livro.

- Helo, tá viajando aí? – perguntou Tony.

- Tava lendo uma crônica do Bukowski e pirei. Esse cara é demais. Até parecia que ele falava de mim nesta história aqui. Leia!

- Porra, é verdade.

- E aí, descolou o esquema pra mim?

- Sim, você vai pro Texas, hoje à noite.

- Ótimo.

Chegando a San Antonio, no Texas, Maite foi procurar o amigo de Tony, Chuck, dono do Texa’s Pub. Chuck ficou encantado com a voz da mexicana e a contratou para cantar nas noites de quarta-feira.

Aos poucos, Maite conseguiu dobrar o público da casa. Mas do palco, ela só tinha olhos para um homem. Era um cara de meia-idade, com a barba por fazer, que se sentava sozinho sempre à mesma mesa. Ele abria a noite com uma dose uísque e depois tomava garrafas e mais garrafas de cerveja.

Certo dia, Maite tomou coragem e foi sentar-se com o cara.

- Quer um drinque? – perguntou.

- Claro.

- Você tem uma puta voz.

- Você acha?

- Se eu não achasse, não viria aqui todas as quartas pra te ver, porra.

- E porque nunca falou comigo?

- Sei lá, achei que pudesse perder o encanto.

- E perdeu?

- Não.

- Como é o seu nome?

- Charles, mas pode me chamar de Buk.

- Você é o Charles Bukowski?

- Me conhece?

- Porra, sou sua fã.

Bukowski pegou Maite pelo cabelo e a levou para o seu quarto imundo num hotel barato a dois quarteirões dali, onde tiveram tórridas noites de amor, por três meses. Depois disso, Maite caiu na vida texana e Buk fez voto de castidade e nunca mais foi visto no Texas.

        

pausa para o café preparado por Camila Pratti | Fala aí!