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Látex BrancoSegunda, 3 de Dezembro de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor - O cara me pediu R$ 300 para pintar esse apartamentinho, você acredita?Claro que eu acreditava. A parte que eu estava prestando atenção eu acreditava. Não haviam mais móveis no apartamento, só uma caixa de pizza e umas cervejas num isopor. No quarto, o armário estava se esvaziando aos poucos e as grandes malas estavam enchendo. Parecia que as roupas desciam como tartarugas em direção ao mar, criando um mosaico que mostrava que a vida continuava, mas na realidade, era apenas uma amiga muito querida que deixava o convívio. Eu nunca imaginaria que o dia seguinte à uma mega balada de formatura pudesse ser assim. Além do armário, uma pequena cômoda, uma mesa e um computador que ainda estava ligado mas a conexão à Internet estava cortada já. Mesma coisa com a TV a cabo. Esses móveis velhos ficariam para o apartamento, para que o apartamento tivesse memórias da vida de faculdade. O computador iria brevemente para o porta malas do meu carro, assim como as malas. Caso coubessem claro. - Não se preocupe, a gente dá um jeito nessas paredes rapidinho, eu dizia enquanto media o trabalho que seria cobrir as marcas das festas que esse apartamento já vira. Na melhor das boas vontades eu já estava despejando tinta na bandeja e preparando os pincéis e rolos, enquanto imaginava por que um mestrado no Canadá seria tão importante para a formação dela. - Você pode entregar o computador na casa da minha tia? Ela perguntava enquanto copiava o último CD de MP3. - Claro... Eu disse sem olhar para os lados, enquanto o rolo cobria a parede lentamente, espumando tinta onde passava, cobrindo com uma camada simples as marcas de fumaça de cigarro, os pés nas paredes, as mãos nas paredes, os móveis afastados, os quadros retirados, as fotos penduradas e tudo o mais que fizeram desses cinco últimos anos os melhores da minha vida. Ela abriu uma das muitas cervejas do isopor e, com um pincel nas mãos, ajoelhou-se próxima a parede que eu pintava, cobrindo o espaço do rodapé que o rolo não alcançaria sem manchar o carpete. - E você, vai ficar por aqui mesmo? Não volta para casa? - Não... – respondia vagamente, porque na realidade meus planos estavam mesmo de malas prontas, copiando CDs e pintando rodapés. – Não sei exatamente o que vai ser de mim, mas com certeza não será naquela cidadezinha. O cabelo dela caiu no rosto, como de hábito fazia, e ela o afastou e prendeu atrás da orelha, como de hábito fazia, ainda que eu soubesse que eles não ficariam ali por muito tempo. Antes que o rolo subisse para perto do teto, ainda mais uma vez a sua franja acariciaria sua bochecha. Senti inveja da franja. A tarde transcorreu rápido, como acontece quando o trabalho braçal emoldura o fluir da vida. A vida fluía firme, em direção ao Canadá sem muita esperança de voltar. A vida fluía como fluiu nesses últimos cinco anos, inexorável e inevitável, deixando para trás tudo aquilo que não teve coragem de se dizer, de se impor, de se estabelecer e de tentar mudar o rumo da vida. Como eu. Eu nunca tive coragem de tocar aqueles ombros arqueados sobre a difícil tarefa de embranquecer um pequeno apartamento que eu vira tantas vezes com olhos distantes. Eu nunca tive coragem de virar aquele queixo determinado na minha direção e deixar bem claro que eu gostaria de existir. Se eu tivesse feito, se eu não tivesse deixado a tinta correr apagando as memórias das paredes, talvez Canadá não existisse. O sol se pôs quando a primeira brasa do cigarro se acendeu e as melhores memórias da faculdade residiam sob uma camada fina de látex. Ela me estendeu o cigarro enquanto abriu a última lata de cerveja. A pizza já deixara de existir. Canadá, no entanto, existia e se aproximava. Deitados no chão da sala, fumávamos. Ela contabilizava as próximas horas. Eu ouvia. - ... aí eu deixo as malas na minha tia e compro a passagem para as seis horas. Depois eu pego um táxi até a rodoviária e meu pai me encontra no aeroporto... Eu estava branco. Branco látex. Ela falava, e falava e o cigarro acabou. Silêncio. - Obrigada, eu não tenho como te agradecer, o pessoal desapareceu, a Carol e a Rafa simplesmente foram embora, eu ía pagar o pintor sozinha, o contrato ainda está no meu nome, se você não me ajuda, não é o Dani e nem o Rodrigo que apareceriam aqui... - Tem sim. - Hã? - Tem sim como me agradecer. Eu sei como você pode me agradecer. - Como? Silêncio. Fechei os olhos. - Um beijo. - Você quer um beijo? Virei de lado, para ela e abri os olhos. Agora era tarde. Já estava dito e pronto, não podia voltar atrás. Seja o que Deus quiser. Qual o pior que pode acontecer, o que ela pode dizer? Perder a amiga eu não vou. Vou? - Quero. Ela sorriu o que parecia ser um sorriso. Parecia ser um sorriso branco, algo que não dizia se havia entendido perfeitamente, algo que tentava descobrir se aquilo era uma piada, mas não tinha certeza se gostaria que fosse. Algo ingênuo, claro, mas algo delicado. Mas o sorriso se abriu tão devagar quando a cabeça dela se aproximou da minha e eu enfim me deitei sobre tecidos nobres, colhi calor com as mãos e consegui imprimir naquele apartamento uma memória muito maior que látex branco não cobriria. Amor é mesmo uma questão de coragem. Ainda que tarde.
coisas que acontecem por aí sempre acontecem com
Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 2 sublimes almas
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