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Kreuzberger Toiletten

Segunda, 19 de Maio de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Enquanto ponderava uma série sobre toaletes no estrangeiro, ainda tentando digerir a história do cocô do Michael Douglas, aterrissei em Berlim.

Fiquei hospedado no Kreuzberg, um bairro antes desvalorizado porque ficava na esquina do muro, que agora renasce como um reduto da juventude progressista berlinense. Além de hospedar muitos estrangeiros, punks, artistas, jovens estudantes e outros alternativos, o bairro se caracteriza por edifícios antigos com pé direito alto, varandinhas e páteo interior. Mas como esta coluna não é sobre arquitetura...

Nada chamaria muito a atenção deste autor num tipico Kreuzberger toiletten, não fosse justamente a hora crítica de exorcizar a infalível mistura de bratwurst com repolho e mostarda, pretzel, waffle com açúcar, queijo de cabra e azeitonas turcas, tudo regado a muita bier, klaro.

Fiz todo o ritual: respiro profundamente, penso em uma praia paradisíaca, rersmungo três Om’s e pego uma revistinha - depois deixo a revistinha de lado para não contradizer meu protesto do mês passado - e sigo rumo ao toiletten, para finalmente acomodar-me no trono.

Qual não foi minha surpresa quando falhou o Pluft! - famoso barulhinho de quando o gerônimo atinge a água. Em vez disso um silêncio estranho tomou conta do banheiro... Não fossem os outros sentidos do corpo que confirmaram, sem sombra de dúvida, o sucesso da iniciativa, eu teria imediatamente concluído que havia algo errado com meu intestino.

Levanto após a obra e observo que o vaso tem um degrau que aloja nosso produto interno bruto antes do cruel ato da descarga. Achei de uma engenhosidade surpreendente - até para a incrível criatividade alemã - um estágio intermerdiário que evita que o vaso, quando devidamente estimulado, responda com aquelas alegres gotículas de água suja na bunda.

Higiênico ou não, o fato é que o autor é obrigado a admirar a própria obra antes de mandá-la latrina abaixo, coisa que talvez causasse convulsões ao companheiro Michael Douglas.

Descobri que apenas edifícios das décadas de 50 mais ou menos possuem tal aparato e que hoje em dia não se vende mais. É uma pena que algumas invenções tão engenhosas não "peguem". No caso do engenhoso vaso germânico, tinha tudo pra dar certo. Tenho certeza de que foi erro de marketing.


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