Home >
>
Jogo Perigoso
Jogo Perigoso
Domingo, 10 de Fevereiro de 2008
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
SEQUÊNCIA 1 - NA ESTRADA
(Externa, estrada, dia, céu limpo) Um carro de modelo novo e carro atravessa uma estrada pequena cercada de árvores. Dentro um casal aproveita a viagem. Ele é mais velho do que ela.
MARINA Eu adoro esse trecho da estrada. Olha ali os jequitibás. Parece que o tempo simplesmente não passa aqui.
REINALDO É por isso que eu gosto daqui. Me dá uma sensação de eternidade. De paz.
Ela sorri. Ficam em silêncio por um tempo.
REINALDO E também, para esses jequitibás as mudanças de tempo não são nada.
MARINA Não, não são mesmo. Será que esse é o sinônimo de paz? Deixar o tempo passar e não se deixar afetar?
REINALDO Talvez. Mas mesmo as velhas árvores um dia caem.
MARINA É verdade...
Mais um silêncio segue enquanto Reinaldo dirige e Marina observa a paisagem. Depois de um tempo ela inclina-se para trás e pega sua bolsa. De dentro tira um frasco de remédios.
MARINA Rê, está na hora do seu remédio.
REINALDO Não pode esperar um pouco, não? Já estamos quase chegando.
MARINA Reinaldo, é importante.
REINALDO Tudo bem, mas falta só uns 20 quilômetros e eu não vou ter um enfarte aqui na estrada.
MARINA Mas o que é que custa, toma agora.
REINALDO (IRRITADO) Marina... Ah, Marina, deixa eu chegar lá e eu tenho pelo menos eu tenho direito a um copo de água para engolir essa porcaria!
MARINA Nossa, está bem, não precisa falar assim.
Eles ficam em silêncio novamente, dessa vez ele não sorri.
SEQUÊNCIA 2 - CHEGADA À CASA (Externa, portão e varanda. Interna, sala de estar, dia)
O carro encosta frente a um portão pequeno. Reinaldo desce, destranca o cadeado e abre o portão. Ele volta ao volante. O carro sobe por uma ladeira de pedras já cobertas de limo e pára ao lado de uma casa rústica, porém bem cuidada. Uma floresta cerca a propriedade. Eles descem do carro, carregando caixas em direção à porta. Ele pousa a caixa de mantimentos no chão e destranca a porta. A porta abre com um rangido. Ele deixa ela passar.
REINALDO Maldita porta!
MARINA Foi você quem não quis ter um caseiro. Agora você é que vai ter que concertar esse barulho.
REINALDO Em troca da minha privacidade, paz e sossego eu fico ouvindo esse rangido irritante como se fosse Mozart.
Marina entra na cozinha com a caixa de papelão com mantimentos.
MARINA Para não mencionar uma significativa redução de despesas.
REINALDO E pagar um desocupado para não fazer nada o ano todo?
MARINA Eu aceitaria uma desocupada que ao menos passasse um pano no chão para a gente poder chegar em uma casa limpinha.
REINALDO Você queria que eu pagasse dois desocupados ainda por cima?
Marina volta da cozinha com um copo de água e um comprimido na palma da mão.
MARINA Você deveria é pagar uam enfermeira para te dar seus remédios e aturar o seu mau humor.
Reinaldo toma a pípula e bebe um gole de água.
REINALDO Uma enfermeira de uniforme branquinho para me paparicar o dia todo? Olha, não é uma má idéia...
MARINA Seu velho tarado. Você nem daria conta dela.
REINALDO Dependendo do tipo de comprimido que ela trouxesse para mim...
MARINA Pois trata de ir se acostumando com esse comprimido mesmo e com a única enfermeira que te suporta: eu.
REINALDO Eu não poderia viver sem você.
Ela sorri e o abraça. Ele afaga o cabelo dela e a beija.
REINALDO Afinal, quem limparia tão bem a minha casa?
MARINA (SORRINDO) Porco!
SEQUÊNCIA 3 - ARRUMANDO A CASA (Interna, vários ambientes, dia)
Marina passa pano no chão enquanto Reinaldo guarda nos armários e na geladeira os mantimentos trazido nas caixas. Ele guarda comida, sucos, refrigerantes e vinhos na cozinha. Enquanto ela passa pano nos móveis, ela acrescenta shampoos, sabonetes e outros itens ao banheiro. Ela estende toalhas de banho e abre janelas enquanto no quarto ele abre os armários e deita o colchão que estava em pé contra uma parede na cama. Enquanto ele guarda roupas nas gavetas, ela coloca lençóis na cama. No processo de arrumação, às vezes eles trocam olhares, sorrisos e até um beijo.
SEQUÊNCIA 4 - RELAXANDO APÓS O JANTAR (Interna, sala de estar, noite)
Marina está sentada em uma poltrona lendo um livro. Reinaldo afastou os pratos sujos da mesa de jantar e trabalha em seu laptop. Ambos tem vinho em suas taças. Eventualmente um deles toma um gole.
MARINA Rê?
REINALDO (SEM TIRAR OS OLHOS DO COMPUTADOR) Hum?
MARINA Rê, está na hora de novo.
REINALDO Hum... Está bem...
Reinaldo termina de digitar uma frase no computador e levanta a cabeça olhando em volta.
REINALDO Onde está?
MARINA Está ali no balcão, ao lado da minha bolsa
Reinaldo levanta da mesa, vai até o balcão da cozinha, toma um comprimido com água e deposita o frasco sobre o balcão novamente.
REINALDO Honestamente não sei porque você gasta tanto tempo se preocupando com a minha saúde. Eu estou ótimo, e você sabe, como dizem, vaso ruim não quebra.
MARINA Digamos que eu prefiro gastar a sua saúde do jeito que eu quiser.
REINALDO Gostei de ouvir isso. Posso esperar grandes surpresas no quarto?
MARINA Não, mas pode esperar muito carinho hoje. Faz um tempo já que a gente não tem um tempinho só para nós dois, não é?
REINALDO Estou gostando do rumo da conversa. É, faz um tempo sim. A vida pode ser bem complicada às vezes. Msa eu já estou terminando aqui. É coisa rápida.
MARINA Que tal se eu disesse que eu não quero esperar?
REINALDO Ótimo, eu também não quero.
SEQUÊNCIA 5 - NO QUARTO (Interna, quarto, noite)
Reinaldo traz Marina para a cama e segurando sua mão coloca-a sentada na beira da cama. Senta ao seu lado e a beija. Tira os sapatos e as meias enquanto a acaricia. Eles tiram a roupa trocando carícias e se abraçam sobre a cama. Logo ela está só de calcinha e ele apenas de cuecas. Deitam lado a lado e se olham nos olhos.
REINALDO Sabe, eu queria experimentar algo um tanto diferente hoje. É uma idéia velha que eu tenho e não sei se você ía se sentir muito confortável...
MARINA O que é, amor?
Reinaldo se levanta da cama e vai até o armário. Abre uma gaveta e tira duas algemas.
REINALDO Isto. É uma velha fantasia e, eu... bem...
MARINA Onde é que você conseguiu isso? Um homem da sua idade e posição freqüentando sex shop?
Ele senta ao seu lado na cama.
REINALDO Não, não são de sex-shop. Essas eu comprei de um investigador da polícia que eu conheci.
MARINA Rê!
REINALDO Mas são novinhas, não foram usadas e nunca prenderam nenhum bandido.
MARINA Ótimo, existe um investigar da polícia que me acha uma tarada!
REINALDO Tecnicamente, é a mim que ele acha tarado.
MARINA É, e tem razão!
REINALDO Tem sim. Mas eu sou um fracasso de tarado. Só sou tarado por uma única mulher.
MARINA Sei. Bem, ainda assim, eu não sei. Como isso funciona?
Ele se deita ao lado dela e eles brincam com as algemas.
REINALDO Bom, não é uma tecnologia muito complicada. Esta parte vai no pulso. Essa parte prende aqui e só abre com chave.
MARINA Sei, e perdeu essa chave, pronto, estou presa para sempre!
REINALDO Bom, as duas algemas são iguais e eu tenho uma cópia extra de cada chave, então teríamos que perder quatro chaves para você estar definitivamente presa à guarda da cama.
MARINA Quatro cópias? Não sei se isso é muito consolo, quer dizer, e se acontecer alguma coisa?
REINALDO Espera aí.
Reinaldo se levanta e deposita uma cópia da chave em cada canto do quarto.
REINALDO E por fim, só mais esta.
Ele tira o cordão de ouro que tem no pescoço, prende a chave e coloca de volta o cordão.
REINALDO Se sente mais segura agora?
MARINA Um pouco.
REINALDO Vamos tentar assim, só uma, pode ser?
Reinaldo puxa a mão de Marina contra a guarda da cama e a algema. Cobre-a de beijos. Beija sua barriga e pernas. Ela fica mais à vontade.
REINALDO Posso, amor? Só dessa vez?
MARINA Mas porque você quer isso, hein?
REINALDO Ora, é só uma fantasia.
MARINA Fantasia de quê? Você não vai querer me bater, vai?
REINALDO Não, de jeito nenhum! É só uma fantasia, oras. Eu... Bem, não tenho como explicar. É só uma coisa que eu queria.
MARINA Bem, vê lá, hein?
Reinaldo carinhosamente conduz sua outra mão contra a guarda da cama e a algema. Marina está com os dois braços abertos, um em cada poste da cabeceira da cama. Reinaldo começa a beijar seus pés e pernas e vai subindo.
REINALDO Você está linda, amor.
Segue beijando. Olha para ele e sua fisionomia muda. Um sorriso maquiavélico corta seu rosto.
REINALDO Você é uma menininha muito bonitinha e agora eu vou fazer com você o que eu quiser. Vem aqui minha delicinha...
MARINA Reinaldo!
REINALDO (SÉRIO) Calma, amor, é sua uma fantasia, usa a sua imaginação.
Marina desvia o olhar para o teto enquanto Reinaldo continua beijando-a.
REINALDO Vem cá, minha menina, minha gostosinha... Hummm... você cheira tão bem, e tem uma pele tão lisinha... Ah, vou fazer loucuras com você. Vem pra mim, delícia, me experimentar o que é bom...
Essas palavras disparam em Marina uma seqüência rápida de flashes de memória. Em cenas rápidas vemos um homem não identificado em cima de Marina adolescente. Ele prende as duas mãos dela contra a guarda da cama e se aproxima beijando. Estão ambos já sem roupa. O homem aparenta ser bem mais velho. Na memória ela grita e esperneia. Assustado com os gritos da esposa, Reinaldo se afasta da mulher e observa atônito enquanto ela se debate e grita para que saia de cima dela, que a deixe em paz. Enquanto esperneia, Marina acerta um chute no saco de Reinaldo, que emite um grito curto e grave. Ele agarra o lado esquerdo do peito e se curva, caindo da cama. Seu rosto se contorce de dor. Ele estica o braço em direção à sua esposa, que silencia e observa o marido no chão.
MARINA Rê, você está bem? Rê? Rê, me desculpe, eu... Rê?
Reinaldo balbucia e tenta levantar-se ou tocar sua esposa, mas não consegue e morre. Enquanto isso o frasco de remédios permanece no balcão da cozinha.
MARINA (GRITA) Rê?!?! Reinaldo!! Não, Rê, não me deixa, por favor! Rê!!
Ela se agita e puxa as algemas, mas não consegue se livrar. Tenta levantar da cama, mas não consegue, tenta quebrar a guarda da cama, mas também não consegue. Ela observa uma cópia da chave da algema em cada canto do quarto e uma no peito do marido falecido. Marina se deita novamente. Olha para as duas algemas e experimenta puxar cada uma individualmente.
MARINA Fudeu.
|