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James Dean a Rigor

Sexta, 1 de Junho de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Nos anos 50, os jovens americanos de classe média não tinham muito contra o que protestar. A Guerra da Coréia, primeira das arbitrárias intervenções militares dos EUA, estava rolando. Mas, ao contrário do que fariam na década seguinte em relação ao Vietnã, os garotos cinqüentistas não julgavam uma guerra motivo suficiente para se descabelar – e pôr a perder as horas em frente ao espelho ajeitando o topete?

Havia também a discriminação racial nos Estados do Sul, cujas constituições legitimavam absurdos como assentos para negros em ônibus e escolas exclusivas para brancos. Ultrajante, mas também insuficiente para fazer os teenagers perderem o sono – a não ser que alguma fogueira da Klu Klux Klan nas redondezas atrapalhasse o escurinho dos seus quartos. Mesmo que as vantagens de um dos maiores períodos de prosperidade econômica da nação não chegassem a todos, pouco importava aos covers de Natalie Wood e Marlon Brando, que saltitavam ao som do rockabilly como se todos fossem felizes como eles.

De fato, nada lhes servia de motivo para revolta. Ou melhor, quase nada: a única coisa que os deixava putos era exatamente a suposta ausência de razões para protestos. Foi aí surgido o termo que deu nome ao filme mais emblemático da época: “Rebel Without A Case” (“Rebelde Sem Causa”, conhecido por aqui como “Juventude Transviada”) retratava essa moçada que não se abalava com as injustiças da mundo, mas saía na mão com quem chamasse de “galinha”. Sucesso de bilheteria, o hoje clássico imortalizou James Dean. Só esqueceram de avisar isso ao motorista do carro que bateu no dele e o matou, aos vinte e quatro anos.

A molecadinha alienada daqueles idos, hoje na casa dos setenta anos, fez muitos herdeiros. Além de filhos e netos, outros com idade para sê-los compartilham de seus ideais – ou da falta deles. Diferentemente dos jovens de cinco décadas atrás, os de hoje não dizem não terem contra o que se revoltar. São mais espertos. Participam de passeatas contra a globalização, contra os transgênicos, contra a guerra do Iraque – bisneta daquela contra a Coréia –, contra a corrupção. Mas quem vê nisso engajamento se engana: quando “os jovens vão às ruas” o que menos importa são as causas. Estão mais interessados em paquerar, matar aula ou pagar de consciente e, assim, aumentar as chances na paquera. A revolta é a novíssima forma de alienação, muito mais cool. Os arruaceiros da USP sabem do que estou falando.

Há cerca de um mês, como você deve saber, um grupelho invadiu o prédio da reitoria da mais conceituada universidade do Brasil. E sabe o que eles pedem? Pois é, eles também não. Todo esse tempo, toda essa comoção e nenhuma reivindicação concreta. Em linhas gerais, exigem “melhor qualidade no ensino”. Pô, que parte do “mais conceituada universidade do Brasil” eles estão com dificuldade de entender? Se quisessem dar algum sentido a essa ação estapafúrdia, eles poderiam mudar o enfoque do protesto. Minha sugestão é para que fossem a público dizer que a imprensa distorceu suas palavras (sempre pega bem meter o pau na imprensa) e que, na verdade, o que reivindicam é um maior número de estudantes vindos da rede pública entre eles, filhinhos de papai provenientes dos melhores colégios. É, porque estando no lugar onde milhões de outros gostariam de estar, bater o pé e fazer chacrinha me parece, no mínimo, ingratidão.

Perdidos num ideário ultrapassado, os revolucionários alienados perdem a oportunidade de fazer alguma diferença. Já que não acreditam no sistema, ao invés de querer derrubá-lo, por que não fazem trabalho não-remunerado? Porque ser voluntário não impressiona tanto quanto entoar hinos usando boina e camiseta do PSTU. Fazer espuma é o que eles querem. E a julgar pelos cantos de suas bocas raivosas, estão conseguindo.

Mas vamos dar um crédito pros carinhas da USP, vai. Bem nascidos, estudando na melhor universidade do País, com carreiras promissoras pela frente, eles não tinham nada com que se revoltar. E, como bem lembra o Ultraje a Rigor, assim não tem como crescer. Então é assim: moçada, bacana a invasão da reitoria. Mas, agora que vocês já têm histórias para começar um xaveco ou mesmo para se orgulhar contando para os netos, chega. Comecem a limpar essa bagunça.

Se quiserem, também podem abrir mão de suas vagas. Assim, além de se tornarem mártires, dizendo que não querem fazer parte de instituição hipócrita como essa, vocês ainda vão dar espaço para alguém mais interessado em estudar. Vamos. Ou vocês não têm coragem, “galinhas”?

Aquela coisa toda por Leandro Leal | 11 descendo o pau