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Intervalo pro café

Sábado, 24 de Março de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

    Peguei-me ainda há pouco pensando na garota com corpo dançante e cabelos ao vento, reluzentes ao Sol tímido de uma tarde fria na santa Sé de Sampa. Ela passa pelo lado de fora da janela, mexendo com os dedos e com as pulsações de todos ao redor: os homens paralisam-se e as mulheres ficam aflitas diante tanta graça. E ela se vai do mesmo modo como veio, sem avisar, sem parar, sem prestar atenção no tumulto que causa dentro deste já maduro coração. Sinto como que um toque, o vento toca em sua saia ao virar a esquina para a eternidade e ela some em meio aos ladrilhos, levando junto com sua bolsa e seus colares, um leve suspiro, que me separa do sonho a uma xícara de café sem açúcar.
E continuo a ouvi-la pelos cantos do ouvido, estalando o eco de seu salto agudo e trazendo uma nova dor de cabeça aos problemas diários, que me voltam a engolir como a fumaça da grande e cruel cidade de São Paulo, onde um instante corta seu peito num sufoco claustrofóbico entre os arranha-céus, enquanto outro apresenta suas belezas confortantes que o convidam para entrar, a qualquer hora do dia ou da noite.
Entre tantas janelas que se abrem para admirar o belo que há no caos humano, lá estava eu e a dona da tarde, carregando os breves versos de paixão que ainda podem ser resgatados enquanto a música não pára e corre pelas avenidas, clareando o rumo certo de uma felicidade distorcida, porém muito bem-vinda.



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