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Havia um escritor dentro de mim...

Segunda, 7 de Maio de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Este ano fazem vinte que fui alfabetizado e, consequentemente, vinte que escrevo. Não se trata de uma figura de linguagem, mas de uma realidade. Sempre gostei de escrever, aquilo que ainda não haviam escrito, ou de maneira que ainda não haviam feito.

Aos oito já reformava umas letra do velho Raul, pensando estar melhorando um “maluco beleza” ou então “gita”. Mas na verdade, apenas adaptava a música para mais próximo da minha vida. Achava que tinha uma vida, quando não se passava de uma infância digna e feliz. Mas era como se dobrasse a música e a colocasse a sentar do meu lado, pra fazer companhia.

Grava um ou dois cassetes, passava as letras do ouvido para o papel, depois corrigia aqui ou ali, e guardava numa pasta que se não era verde, esverdeou-se em minha memória.

Não sei onde anda a pasta, certo que está nalgum lugar dentro de uma das diversas caixas que não abro a anos, mas que sempre levo pra esta ou aquela casa quando mudo (invariavelmente uma vez ou duas por ano). A cada mudança percebo as caixas fechadas aumentarem.

Faço questão dos livros na estante, dos litros de destilados no raque da televisão e meu cinzeiro de prata nalgum canto da casa. O resto que fique nas caixas. Velhos demônios encaixotados, além de ocupar menos espaço, incomodam menos, economizando em antiácido e fazendo os litros de destilados durarem mais.

Lembrei-me da infância e dos versos pudicos que guardei naquela pasta verde, pois sinto falta da poesia. Não da poesia versificada e enaltecida, nem de Baudelaire ou Macalé. Sinto falta da poesia dos dias, nos dias. A poesia besta do fim de tarde; a crôniqueta do meio da tarde; a praticidade de um haicai besta e mal-acabado.

Sinto falta das palavras puras. As frases naturais. A meses não sei o que é isso. Vivo de torcer e forjar e fundir palavras para criar frases que acabem por fazer as pessoas se convencerem de que ela é verdadeira. Que minhas histórias são verdadeiras, concisas, fechadas, sólidas.

Sabem bem, que gosto do lodo, do plâncton no final do grafite, das finais infinitas, das frases abertas quando não inacabadas. Por isso, estou abrindo uma caixa destas que guardo as cousas minhas. Chamar velhos demônios para a dança, para o papel e para um bom trago as cinco da manhã de segunda-feira. Utilizar-me-ei destes capetas, que tanto me atazanaram e que tanto carrego de lado para o outro.


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