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Guerra dos sexosSábado, 3 de Fevereiro de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Por mais que eu não quisesse admitir, o meu casamento estava próximo do fim. Há tempos que não nos entendíamos exatamente bem. Mas encerrar um relacionamento de dez anos por causa de um comentário sobre depilação pubiana é difícil de aceitar.- Não é possível que tenha sido por isso. - Mas foi assim. Tudo começou com a história da depilação. Se você não acredita em mim, vai atrás da Relva e pergunta pra ela. - Péra aí, Chiquinho. Alguma coisa não se encaixa. Você estava elogiando o corpo dela quando, de repente, ela pediu separação? - Mais ou menos isso. - Não, não e não. Me conta direito. O que você fez para a minha amiga? - O que eu fiz? Era só o que faltava. A Relva te liga, fala que vai me deixar e desliga o telefone na sua cara. Você vem até a MINHA casa, falar COMIGO, me encontra ARRASADO e ainda se sente no direito de me acusar? - Desculpa, é que eu estou nervosa. Sei que ela não vinha bem, depois que VOCÊ bateu o carro DELA após beber umas e outras. - Ta, mas isso era assunto passado entre nós. Ela te contou que beijou o meu primo na boca, na festa da minha tia? Estava bem mais bêbada do que eu no dia do acidente de carro... - Nããããão, não contou. - É claro que não. Minutos depois ela vomitou na sala da minha tia. E me mandou tomar no cu na frente de todo mundo, quando eu comecei a limpar a sujeira. Diz ela, agora, que não lembra de nada. - Mas, mas, ã, isso não vem ao caso, né? Como foi a briga de hoje? - Eu elogiei a tal depilação da virilha. Disse que ficava sexy e aquela coisa toda que as mulheres gostam de ouvir. Daí, não sei o porquê mas ela retrucou, dizendo que não valia a pena depilar daquele jeito porque doía muito. Eu disse que tinha ficado lindo e apesar da dor estava bem melhor. Ela levantou me olhando feio e tínhamos, como posso dizer, começado as preliminares. - Ta entendi, e aí? - Daí ela lembrou de umas férias de colégio, quando ela quebrou a perna e não pôde viajar comigo para o litoral. Em vez de eu cancelar a viagem e ficar com ela, acabei indo com o pessoal para a praia. Argumentou que eu continuava o mesmo egoistinha de sempre. - Certo. - Certo? - Quero dizer que entendi. E o que mais? - Ela reclamou que era muito triste após dez anos de casamento só receber elogios quando depilava a virilha. Nessa hora eu não agüentei e fiz a pergunta errada. - Que pergunta? - Se ela estava na TPM. - Huuummm... - Ela gritou: “NÃO, NÃO ESTOU”. Mas eu sei que ela está. Ela começou a se vestir e dizer que não dava mais, não dava mais e não dava mais. Eu achei que ela estava dizendo que não dava mais para transar naquelas circunstâncias, daí eu me exibi mostrando que ainda estava bem disposto. - Nossa. - Ela achou bizarro. Disse que minha sensibilidade era igual a de um macaco. Acrescentou que era exatamente assim que se sentia comigo: como se estivesse dormindo com um macaco - gordo, peludo, mal cheiroso e insensível. Eu tentei debochar, na expectativa de descontrair, dizendo que gostaria de ser um macaco. Lembrei que eles eram, sim, muito sensíveis e pulavam de galho em galho, o que era interessante. - Comentário errado. - Pois é, ela odiou. Disse que definitivamente não dava mais, e me mandou procurar a chita. Eu rebati alegando que, conforme ela mesma disse, os macacos eram peludos e a chita não conseguiria fazer uma depilação tão sexy quanto ela. - Comentário errado novamente. - Ahã. E não satisfeito comecei a esmurrar o meu peito, imitando um gorila. Ela ficou me observando perplexa por alguns segundos, ainda colocando algumas peças de roupa. Depois sacudiu a cabeça meio que lamentando. Disse que não sabia como um dia se apaixonou por mim. Eu falei para ela não pegar pesado e ir tomar maracujina para melhorar o humor. Ela emendou dizendo que tudo para mim era uma grande piada. E que casar com um palhaço não era nada engraçado. Daí eu já estava emputecido. Ironizei, alegando que de todas as piadas que eu conhecia a mais sem graça era ter me juntado com ela. - Que grosso. - Ela começou a chorar. Disse que finalmente eu poderia rir dessa piada, pois ela não ficaria comigo nunca mais. Saiu batendo a porta dizendo que hoje mesmo ia procurar um advogado e solicitar a abertura de divórcio. Tentei ligar no celular cinco vezes, mas ela não atendeu. - Talvez seja melhor mesmo vocês ficarem isolados uns tempos. Se até uma depilação pode causar tudo isso. - Aí é que está. Ela podia ter pedido esse divórcio antes de eu ver aquela depilação. Ficou tão... - Palhaço. - Foi o que ela disse... |