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Eu sou do interior, que terror, que horror, que leSegunda, 30 de Julho de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor A boa do final de semana era trabalho. Lógico, sempre trabalho aos finais de semana. Não do tipo de trabalho que se faz atrás de uma mesa na frente do computador, mas sim o tipo de trabalho que te manda dirigindo por uma estradinha apertadinha cheia de curvas entre vales e montanhas no interior de São Paulo em direção à megalópole cultural que é Amparo.O 7° Festival de Inverno de Amparo tinha todo o clima de quermesse. Frio cortante, caipiras a solta e barraquinhas vendiam todo tipo de guloseimas. Doces multicoloridos, caramelizados, grudentos e crocantes, doces em compotas, doces envoltos em chocolate, doces com babados, doces com floreios, doces com caldas e toda despropositada sorte de concentrações de glicose. Havia também os salgados, em menor variedade, mas onipresentes no cheiro. Pastéis, empadas, cachorros quentes, sopas, caldos e até yakisoba de japonês falsificado tinha. O que chamou minha atenção, no entanto, foram os lanches. Aparentemente toda carne pode ser colocada no meio de duas fatias de pão, não importa quão exótica seja. Não encontrei cobras ou lagartos, mas avestruz tinha. A grande praça central era decorada com bandeirolas, balões e muitas luzes. Após a imensa “praça de alimentação”, o palco erguido como um transformer congelado no meio de sua transformação. Estruturas metálicas disformes, fios de luz e cabos de som correndo para todos os lados botões coloridos, luzinhas piscantes, caixas de som e o espaço respeitável que abrigaria as atrações musicais. Finda a minha correria desesperada de produtor cultural, pausei para observar o movimento das pessoas, que circulavam. Não paravam para sentar, para observar nada, apenas passavam. Diz-se que nas cidades do interior as praças são feitas redondas de propósito para que as pessoas fiquem andando indefinidamente. Meninos no sentido horário, meninas no sentido anti-horário. O mito tinha lá seu fundamento. Enquanto os músicos esmerilhavam tudo o que podiam e não podiam no palco tentando chamar a atenção dos passantes circulantes, eu me dedicava a consumir entorpecentes legalizados com o técnico de som atrás do palco. Bebemos direitinho. Sentindo que o estômago brevemente reclamaria e a estrada de volta ficaria ainda mais curvilínea do que na vinda, resolvi atacar o fantástico Jesus-me-chama que a culinária local ofereceria. Não era fácil trafegar, não importa se no sentido horário ou anti-horário. Ébrio um tanto, e paciente nenhum tanto, fui me acotovelando com os agro-boys até onde a gordura no ar era tão densa que parecia visível. Coletei alguns xingos, observei algumas gatinhas e cheguei até onde pude me atracar com um xis-qualquer-coisa. Com cerveja, claro. Mastigando, eu observava aquelas menininhas com o rosto angelical da inocência descaradamente falsa que só o interiorrrrrr pode proporcionar. A mais gostosa, eu não resisti, perguntei na caruda se ela queria me mostrar a cidade. Como uma boa filha de coroné, ignorou e foi-se embora rebolando e fazendo a cabeleira morena dançar. A sensação era de casa da vó: estômago cheio, leve sonolência e o calor gostoso de quem não tem mais nada para fazer a não ser ver o tempo passar, apesar do frio. O show que eu produzira já havia terminado e eu já poderia considerar a noite como apenas mais um dia no escritório. Hora de pegar a estrada para casa. Existem algumas regras importantes para o viajor interiorano. Se você está numa cidade pequena no meio do nada, observe que, em primeiro lugar, não se come qualquer porcaria. Questões de higiene, claro. E volume de gordura polissaturadas. Em segundo, não se canta uma moça assim do nada, ela pode ser a filha do prefeito. Ou pior. A nora do prefeito. Em terceiro lugar, não se arruma briga com qualquer caipira. Afinal, ele está na cidade dele e você está sozinho. Como eu já havia quebrado duas dessas regras em menos de cinco minutos, achei por bem quebrar logo a terceira quando o namorado da morena gostosona chegou com sua caminhonete possante de rodas largas e seu incrível séqüito buscapé. É, ele tinha toda cara de filho do prefeito. A briga foi breve. Xingos, ameaças, empurrões e um único soco. Dele, na boca do meu estômago, onde o lanche de animal genérico já estava adquirindo a forma de desastre bíblico. A tempestade de 40 dias e 40 noites jorrou em cima do agroboy. E não haveria Noé para separar aquela inundação. Trôpego, mal respirando, mastigando o sabor ácido da minha última refeição, achei que fosse ser enterrado ali mesmo por falta de recipiente adequado para transportar o que sobrasse de mim. Mas não: entre limpar-se ou brigar com os seus asseclas que se esborrachavam de rir da cara dele, o agroboy recuou. Foi-se. Saí do banheiro ainda zonzo pensando que definitivamente aquele fora o ponto alto da noite e a não ser que chovesse somente em cima de mim, as coisas não poderiam ficar piores. Aí o Teatro Mágico entrou no palco.
coisas que acontecem por aí sempre acontecem com
Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 3 sublimes almas
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