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Eu odeio palhaçosSegunda, 13 de Agosto de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Sou um tipo de vendedor. Vendo idéias abstratas para grandes empresas. “Projetos” é o termo que se usa porque este termo explica como as nossas idéias são virtuais, irreais. Se eu vendo uma dessas, é um pega-pra-capar para torná-la real e justificar a fabulosa quantia que elas valem. E valem. Pelo menos quando são realizadas. Enquanto eu estou no escritório do cliente, essas idéias valem tanto quanto a gravata que visto agora, que é uma das três que possuo, e os clientes não vêem, mas ela começa a desfiar. Quem sabe eu compre uma nova com a comissão da venda que vou fazer agora. Sim, agora vou vender uma idéia irreal a um cliente que vende idéias irreais aos seus clientes. É por isso que eu estou aqui, no banheiro do Shopping Pátio Higienópolis escovando os dentes e passando gel no cabelo. Eu trouxe uma camisa limpa e passada também. Não quero que pensem que a empresa que represento anda mal das pernas. Assim como eles também não querem que os clientes deles pensem que a empresa deles vai mal. Mas estão. E se não estivesse mal, não me chamariam. Será que eles acham que eu vou salvá-los? O importante é que eu vou vender. E ganhar com isso.Neste momento, entra um palhaço. Eu o havia visto dois semáforos para trás, na Avenida Angélica fazendo suas micagens e agora ele está suado e cansado no banheiro do Shopping Pátio Higienópolis, usando apenas o seu sorriso artificial pintado na cara. O semblante é sério. O chapéu está furado. As roupas são velhas. É um triste palhaço mambembe. Ele se tranca numa das cabines por uns minutos e emerge de bermuda e tênis comuns. Sem camisa, ostenta uma fabulosa pança de chopp. É um ser humano, por baixo do palhaço. Apenas a máscara de pancake ainda dá a dica de que um animador de faróis esteve ali. Junta-se a mim na pia ao lado e, com um golpe certeiro, desbasta uma faixa de sua maquiagem branca, revelando por baixo a pele bronzeada. É definitivamente um homem sob aquelas traquinagens. E feio. Propositadamente, gasto mais tempo ajeitando o cabelo de forma a, cuidadosamente, causar a impressão de que eu acabei de acordar. Quero ver esse palhaço sem maquiagem. De rosto limpo, ele se lava, enxágua a boca e seca o rosto com toalhas de papel. Olha-se no espelho mais uma vez e, com a mochila no ombro, parte, deixando a alegria de ser palhaço escorrer pelo ralo. É um rosto comum o que grava a memória. Um homem jovem, moreno, cabelos aparados rente, discreta sombra de barba e olhos simples perdidos no meio do rosto. É um homem que não quer mais nada na vida, sem grandes problemas e sem ambições. Um homem que não chama a atenção na rua. Pelo jeito, por trás da máscara do palhaço, não há grande coisa. Banindo da cabeça o monólogo com o palhaço, volto a pensar em como conduzir a reunião que terei agora. Como introduzir e fazer acontecer os nossos projetos virtuais. Olho-me. Cabelos ok, dentes limpos, camisa passada, barba bem feita. Sim, esta é uma cara em que o cliente pode confiar. Este é um homem que acredita nos projetos que vende. Que vende projetos reais. Não é como a ilusão falsa do palhaço. O palhaço é uma alegria pintada sobre uma cara triste. Aliás, eu odeio palhaços, penso e aperto o nó da gravata. Preciso comprar uma nova.
coisas que acontecem por aí sempre acontecem com
Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 2 sublimes almas
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