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Eu Gosto de Chopin

Segunda, 15 de Outubro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Então, meio difícil escrever sobre São Paulo quando se está na Bahia e depois de sofrer de Ostrose Severa em Floripa, convalescendo por uma semana.

Mas não custa tentar...

Nascido em Beirute, no Líbano, o pequeno Gazebo veio ainda criança para São Paulo, após uma rápida passagem pela Itália, onde foi um dos responsáveis pela popularização do gênero Ítalo-Dance Style.

Quando adolescente, o rapaz vivia dando beijos nas garotinhas da rua, no bairro do Bom Retiro, o que lhe rendeu certa fama.

– Ah, ele me beijou por 12 longos minutos, foi um beijo Gazebo – suspiravam algumas.

Menino superdotado, no físico e no intelecto, Gazebo era fã de filmes pornôs e de música erudita, pois considerava ambos muito didáticos.

Numa era pré-internet, era capaz de ficar horas e horas no YouTube, atrás de trechos de filmes de diretores obscuros do cinema italiano, o que causava paura nos colegas de sua idade, mais interessados em acompanhar as tramas e subtramas de “Malhação”.

– Larga essa porra, Gazebo, isso aí não te faz bem não – palpitavam.

– Tô estudando, Tô estudando – retrucava, enquanto assoviava – ou assobiava, pois não estou muito certo agora – uma canção de Chopin, o compositor de que mais gostava.

É preciso explicar que é um verdadeiro mistério para mim como Gazebo conseguia assoviar (...biar) Chopin, ao mesmo tempo que retrucava aos seus amigos. Mas para alguém que acessava o YouTube em 1987, isso é fichinha.

Numa dessas navegadas, Gazebo deparou-se com um filme chamado “Surra de Cação”, uma obra cult, filmada na Suécia, em 1978. Algo que mudou, sexualmente, sua forma de ver o mundo e incrementou seu repertório.

– Gazebo, vai ter uma festinha no Ilha Porchat, todas as garotas vão estar por lá, poderemos dar vários beijos nelas...

– Beijar, eu beijo pai e mãe. O que liga é surra de cação – dizia Gazebo, já completamente transtornado, enquanto cantava Chopin em ritmo acelerado. (não, não sei o que significa cantar Chopin, mas o Gazebo cantava e em ritmo acelerado, como comentei).

– Que porra de surra é essa!? – questionavam.

Mas Gazebo não respondia, limitava a apontar para o volume no meio das calças e soltava uma sonora gargalhada.

– Esse Gazebo tá cada vez mais maluco – comentavam.

Ocorre que há uma distância considerável entre teoria e prática e entre longos beijos e sexo, como Gazebo perceberia rapidamente.

Imitando o que apenas tinha visto no YouTube, o garoto comprou uma garrafa de Jack Daniels, uma dúzia das melhores “little pussy of the sea” que conseguiu achar no Mercado Municipal e, claro, um cação de bom tamanho, com cerca de um metro de comprimento, para sua estréia sexual.

Por sua habilidade com a língua, também não foi difícil convencer a menina mais bonita da rua para que lhe fizesse uma visita noturna. Como se vê, tudo ia bem, bem demais até.

Gazebo começou dando um de seus famosos beijos na garota, que já os conhecia bem e de quem era muito fã. Acho que não cheguei a comentar aí em cima, mas Gazebo assoviava (...biava) Chopin enquanto beijava as meninas, o que costumava deixá-las ainda mais loucas.

Com a garota suspirando e suspirando, Gazebo achou que já poderia passar para a outra fase do plano.

Pediu licença, foi à cozinha engoliu as ostras uma a uma, sorveu até a última gota da água que as envolvia, tomou dum gole de Jack Daniels, no gargalo mesmo, tirou a roupa e pegou o cação que estava em cima da mesa.

Ao vê-lo voltar pelado para a sala com um cação de um metro numa das mãos, a menina ficou entre assustada e curiosa, pois sabia que Gazebo não batia muito bem da cabeça, mas beijava de modo excelente.

Não resistiu e perguntou:

– Pra que que é esse tubarão?

– Não é tubarão, é cação...vou te dar uma surra de cação...

– Que porra de surra é essa?

Foi a deixa, já que, àquela altura, tanto um quanto o outro já queriam a mesma coisa. Mas quando Gazebo ergueu o cação acima da cabeça e ia dar o primeiro golpe na garota que trazia um sorriso malicioso no canto da boca, eis que o rapaz sentiu o estômago lhe dando um sinal, seguido de outro e mais outro. Ostrose, e das mais severas.

Era tarde para Gazebo se dar conta, mas deveria ter pegado um pouco mais leve com as bucetinhas do mar...

Todos sabem como o poder afrodisíaco pode virar apodresíaco em fração de segundo. Gazebo descobriu isso do pior modo, esvaindo-se em fezes bem em cima da garota mais bonita da rua e com um cação na mão.

Não chegou a ser preso, como o Chancherê, mas teve que mudar de cidade, por não suportar o constrangimento e os comentários maldosos dos colegas.

Hoje, mora no Sul da ilha de Florianópolis, numa casa que tem como única peça de decoração, um belo piano branco de cauda, compartilha cigarros de palha com o Diabo Loiro em pessoa e aprendeu a manter uma distância segura de ostras e cações. 
        

escrevi e saí correndo: Fábio Inverídico | Dois comentários