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Eu compro, e você dá pra outro?

Domingo, 8 de Julho de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

A reconciliação parecia próxima. Até mesmo a pulada de cerca havia sido superada. Afinal de contas, eles já estavam separados quando ela saiu com o Octávio. E, além do mais, foi bonito da parte dela não esconder a verdade. Imagina se ele ficasse sabendo pelos amigos que ela tinha saído com o Octávio. Seria pior. Muito pior. Preferia saber por ela e fingir naturalidade caso algum desgraçado resolvesse levantar essa lebre em algum momento.

Dessa maneira, Jucemar decidiu declarar à Maria Rita toda a saudade que sentia. Estavam separados há quase dois meses. O motivo da separação também influenciava em sua postura magnânima, de perdoar a infidelidade da namorada. Após três anos de relacionamento, Jucemar informou Maria Rita que precisava de espaço para viver. A explicação um pouco vaga não foi aceita pela namorada e então ele foi mais enfático: queria traçar todas as mulheres do mundo.

Na falta da almejada satisfação profissional e com outras desilusões sucessivas, isso tinha virado praticamente um projeto de vida. E nas primeiras semanas até que foi bem sucedido. Ligou para alguns casos antigos e se jogou em todas as baladas que foi convidado. Mas de repente sentiu um vazio.

Já não era mais um adolescente. Aquele mundo era bem divertido. Só que nele, muitas vezes Jucemar sentia-se um peixe fora d’água. Não tinha mais paciência para receber foras grosseiros de meninas infantis. Também sentia preguiça de conversar sobre banalidades e fazer gracinhas para conquistar alguma garota.

Nos últimos dias, nem saía de casa. Ficava pensando em tudo que construiu ao lado de Maria Rita. Numa breve conversa via MSN, Jucemar falou pra ex-namorada que sentia saudade e que pensava se um dia eles voltariam. Ela fingiu ignorar a pergunta, mas no dia seguinte telefonou para ele com o pretexto de que precisava de uma informação sobre gramática.

A conversa telefônica se estendeu. Falaram sobre uma suposta reconciliação e foi aí que Maria Rita avisou que tinha ficado com o Octávio. Era um cara meio que da turma e que sempre deu em cima dela. Depois da separação, ele aproveitou o momento de fraqueza de Maria Rita e “Nhhack”. Safado, sem vergonha, filho de um cão. Jucemar pensou tudo isso, porém, sem moral pra argumentar apenas disse: “putz, finalmente o Octávio deve estar feliz”. Marcaram de conversar pessoalmente sexta-feira na casa dela.

No dia combinado, a mulher fez uma boa produção mas sem exagerar. Pintou as unhas de escuro do jeito que ele gostava e deu uma leve ondulada nos cabelos. Comprou um vinho e decidiu colocar uma roupa despojada, para ajudar no clima de informalidade que queria transmitir ao encontro.

Jucemar chegou no horário marcado e já foi logo ao banheiro sem fechar a porta. Maria Rita perdoou o ato grosseiro, porque sabia que na mente doentia do ex-namorado essa também era uma forma de deixar o clima mais informal.

O diálogo foi breve. Falaram sobre saudade, se elogiaram mutuamente e o beijo veio rápido. Parecia tudo perfeito. Sentaram-se na cama, beberam algumas taças de vinho e em poucos minutos já estavam nus. Daí, Jucemar lembrou que antes da separação tinha colocado uma caixinha com três preservativos na gaveta ao lado da cama de Maria Rita.

Abriu rapidamente a gaveta para não perder tempo e então teve a grande surpresa. A caixinha estava aberta com apenas uma camisinha. Indignado, olhou para o rosto de Maria Rita, que baixou o olhar num misto de vergonha, perplexidade e fúria. Balançando a cabeça, apenas balbuciou: “você queria traçar todas, eu não ia ficar parada”.

Jucemar levantou puto. Aquelas camisinhas tinham sido compradas por ELE. Jogou na cara de Maria Rita que ELE foi até a farmácia, escolheu o preservativo, fez fila no caixa e gastou dinheiro nelas. DINHEIRO. Isso era um absurdo inaceitável. Ela tinha de, no mínimo, ter comprado as camisinhas dela. Aquelas eram DELE. “Eu compro, e você dá pra outro?”, gritou.

A reconciliação acabou por ali. Com ódio, Jucemar fez Maria Rita ir às lágrimas ao esbravejar três vezes um famoso jargão: “Você faz cortesia com o chapéu dos outros”. Bateu a porta da casa ainda gritando essa frase. O desaforo metafórico não amenizou sua dor, mas caiu como uma luva para aquela situação. Ou melhor, caiu como um chapéu mesmo.

        

vem que é bão com a Rogéria | 3 vieram