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Ética de botecoSexta, 2 de Fevereiro de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Tem uma coisa no boteco que deveria ser estudada por filósofos e cientistas políticos: a ética.Isso mesmo, a ética do boteco. Tudo o que a gente vive achando que não existe no Brasil está lá, na esquina, dentro do boteco. O primeiro exemplo para provar o que estou falando é o jogo do bicho. Um contratinho “assinado” num pedaço de papel vagabundo que nunca é descumprido: vale o escrito. Até a Constituição é mais do que sabotada todos os dias, mas o papel do jogo do bicho não. Ganhou, ganhou. E pode parecer incrível, mas nunca ouvi falar em falsificação no jogo do bicho. Até mandato judicial estão falsificando. Papel do bicho, nunca. Outra coisa que mostra a ética no boteco é a sinuca. Enquanto a galera só está brincando, vale tirar a bola do lugar, bater no taco do adversário, tentar empurrar a mesa. Mas se alguém apostou alguma coisa (pode ser inclusive a própria ficha), ninguém rouba. Derrubou, derrubou. Cegou, cegou. Isso é que é ética! Mais interessante ainda é o que acontece com as mulheres. Se uma gostosa passa na frente do estabelecimento todo dia, o pessoal olha, mexe, diz pornografias para a madame. É só alguém do boteco dizer que está namorando a mulher, no dia seguinte ninguém nem olha quando ela passa. Todo o mundo continua na cachaça, no dominó, no carteado, como se nada estivesse acontecendo. E a amizade continua. Por toda essa ética, proponho que o Brasil seja transformado num grande boteco. Um presidente que enche a cara, a gente já tem. É o primeiro passo. |