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Estóicos Minutos

Segunda, 28 de Janeiro de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor


Ele queria poder dizer que as palavras e imagens se embaralhavam na sua cabeça e ele não conseguia pensar direito, mas não era verdade. Tudo era muito claro. O diálogo sucinto com a namorada, neste momento ex-namorada, se reproduzia em sua cabeça com dolorida fidelidade. Era inesquecível e ardia em seus ouvidos.

Ele já havia passado pelo choque total. Já havia passado pela revolta. Já ligara para ela e implorara pelo retorno, sem sucesso. Tudo o que restava agora a sua frente era uma noite que não traria nem sono nem paz e um gigantesco copo de whisky com algumas poucas pedras de gelo.

Ele queria poder dizer que seu coração havia parado ou congelado, mas tampouco era verdade. Ele batia tão acelerado quanto pronunciado. As lufadas de sangue impulsionadas pelas artérias ressoavam em seus ouvidos enquanto os demais órgãos também se contraíam em convulsões. Os espasmos de vida sob suas carnes lhe davam náuseas. Ele apertava os olhos e espremia o copo gelado em suas mãos tentando debelar as contrações involuntárias, mas como soluços de dor, simplesmente aconteciam.

Ele também queria poder dizer que chorara até desidratar, que vertera o próprio sangue pelos olhos, mas nada poderia ser mais longe da verdade. Respirava com dificuldade, era incapaz de proferir palavra e sentia que explodiria a qualquer momento, porém nada turvava sua vista. Nem lágrimas, nem sangue, nem suor. Ele simplesmente estava lá, implorando que o tempo passasse a dor diminuísse, mas isso não aconteceria.

Dragou a bebida em grandes goles e serviu-se de outra e mais outra dose. Só o álcool desligaria seu organismo. Só desmaiado ele poderia fechar os olhos, ainda que não pudesse descansar. Sem ele, o tempo não passaria.

Já bêbado ele gostaria de poder dizer a quem quer que escutasse que ele caíra desfalecido no chão e só assim veria o tempo passar mas não era verdade. Copo na mão, garrafa no porta luvas, lá estava ele na loja de conveniência do bairro, comprando o último ramalhete de flores murchas e enegrecidas do dia, pensando por um breve momento que talvez devesse ter feito isso mais vezes para a namorada, neste dia, ex.

Equilibrando o copo entre as pernas no carro e com as flores no banco do acompanhante, ele cruzava a cidade, singrando o asfalto como se aquilo fosse óbvio. Estava bêbado, claro, mas conhecia aqueles caminhos, entendia aquelas placas, respeitava a legislação do trânsito e, infelizmente, sabia exatamente o que estava fazendo: fazia merda.

E sabia que a merda era grande quando encostou as costas no muro externo da casa da namorada, neste momento, ex. Cheirou as flores velhas e sabia que elas seriam apenas flores largadas no chão da entrada da casa, mas deixou-se ficar e fantasiou que ela seria a primeira a abrir a porta e, ao encontrar as flores na soleira, entenderia o seu sacrifício e o tamanho da dor que sentia. Ao menos, era isso que ele queria dizer que pensou, mas não, não foi nada disso. Bêbado e alucinado de dor, ainda sim conseguia distinguir o desejo desvairado da realidade. Estava fazendo merda, sem motivo nem esperança, mas estava. E não desistira, pensou enquanto estufou o bolso de trás da calça com o caule das flores do ramalhete e com mãos nuas agarrou as bordas do muro.

Com algum sofrimento atingiu o topo do muro e rapidamente jogou-se para o outro lado, com medo do segurança do bairro o ver naquela posição. Aterrissou sobre a grama fofa e foi saudado pela cachorra da casa, pastora alemã com pedigree que já o conhecia. Afagou a cachorra com entusiasmo, torcendo para que ela não latisse.

Percebeu que seu coração pulsava violentamente novamente, mas dessa vez impulsionado pela adrenalina. Suava frio, conhecia as conseqüências de estar invadindo uma propriedade privada, sabia que poderia jogar toda esperança que tinha no lixo, mas felizmente, era isso a única coisa que pensava. Não pensava no porre que tomara. Não pensava na dor do pé na bunda, não pensava nos planos desfeitos, as viagens desmarcadas, o desespero de nunca mais encontrar alguém como ela para dividir a vida. Não pensava em nada, apenas movia-se furtivamente pelo longo jardim em companhia da linda cachorra. Além de seus passos, as únicas coisas que apareciam em sua mente eram a imagem da namorada, hoje sua ex, dormindo como uma criança no andar de cima e a arma limpa e carregada que seu pai guardava na cozinha. Ambos poderiam atravessar-lhe o peito com facilidade.

Depositou as flores sobre o tapete na porta de entrada beijou as pontas dos dedos e depositou o beijo nas pétalas. Missão cumprida. Afagou a cachorra novamente e escorregou pelas sombras novamente, com destino ao portão de madeira. Respirou fundo e mediu seus passos. Encontrou os apoios necessários e começou a escalada, buscando não vergar as madeiras e juntas de ferro. Atingiu o topo e, melhor do que a bebida, dragou o ar gelado da noite. Sentiu-se vivo e mais apaixonado do que nunca, mas lembrou-se da arma carregada na cozinha e começou sua descida pelo outro lado.

Quando seus pés tocaram a calçada do outro lado, voltou à realidade. Queria pensar que seu corpo lhe pertencia novamente, mas na verdade ele é que era escravo do corpo. As mãos raladas exibiam pequenos pontos de sangue nas palmas e pulsavam sob a abrasão da pele com o concreto. Os músculos dos braços e pernas estavam extenuados do esforço. Fedia à cachorra. Suava. Arqueava. E doía. Doía novamente o desespero do coração dilacerado. Finda a aventura, a adrenalina sublimara e os sentimentos eram os mesmos de antes. Suspensão da realidade. Petrificação. Dor, inundação de dor e nada mais lhe fazia sentido.

Queria poder dizer que sentia-se como um herói, mas sabia que naquele momento era o bandido, por isso correu de volta para seu carro e partiu da casa para as luzes da cidade novamente, congelado dentro da impossibilidade de novamente ser feliz. Durara tão pouco, apenas alguns minutos. Estóicos minutos de paz, de não sentir nada, apenas por ter a realidade dissolvida em adrenalina. Queria poder dizer que esperaria pela reação dela ao encontrar as flores em sua casa, mas não sentia nenhuma expectativa. Apenas queria voltar para a casa dela e, entre o medo da cachorra, da arma do pai, da segurança do bairro, simplesmente não sentir mais nada, mas não poderia, sabia que não poderia e, sabendo que nada poderia lhe fazer sentir diferente, passou reto pela porta dos bares que ainda restava abertos e não lhes deu atenção. Não bastavam, não prestavam. Só uma coisa poderia lhe fazer sentir-se melhor.

Em uma outra loja de conveniência, não encontrando flores, comprou uma caixa de bombons, que ele não levaria para a casa da namorada. Não precisava dela, nem de sua cachorra nem da arma de seu pai. Precisava de mais. Dessa vez em condomínio fechado. Escolheu à esmo. Olhou o largo muro, arames farpados e câmeras de segurança e estacionou rente ao muro e, em pé no teto do carro, com a caixa de bombons enfiada nas calças, decidiu não desejar poder dizer mais nada. Apenas fez seus estóicos minutos valerem à pena. 
    

coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | 1 misericordioso comentário