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Em nome do paiSábado, 27 de Outubro de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Toda a mágoa acumulada veio à tona naquele momento. Foi à forra... Depois de 18 anos de intensa procura e espera, não queria mais conhecê-lo. Algo dizia que seria melhor assim e, provavelmente, era. Só que mais uma vez na vida a sorte lhe golpeou, e a realidade foi outra.Naquele instante, um filme passou por sua cabeça com todos os períodos marcantes da sua existência: a infância difícil no Paraná, as cartas e fotografias enviadas; a fome que passou no Mato Grosso do Sul, as cartas e apelos enviados; a volta por cima, as cartas e conquistas relatadas; toda a indiferença recebida em troca. Tudo isso passou pela mente no ritmo cronológico da sua vida, até chegar naqueles chocantes acontecimentos. Já tinha desistido de correr atrás, quando recebeu a ligação inesperada. Estava resignado com a sua história de abandono, porém, a emoção impediu que devolvesse a insensibilidade que sempre recebeu. Partiu para Minas Gerais a fim de encontrá-lo. Achou, por lá, um homem frio, com aparência cansada e que tentava esconder a própria dor a todo custo. Apresentava uma arrogância auto-afirmativa desnecessária para lidar com o seu novo interlocutor e que não era condizente com a idade que tinha. Sentiu pena. E quando aquele senhor disse que precisava de apoio financeiro, mais uma vez a sensibilidade lhe jogou na lona. Passou a enviar dinheiro para Minas Gerais. Estava longe de ser um cara abonado, ao contrário. Trabalhava em obras. Só que o dinheiro que ganhava nas construções permitia sustentar mulher, um filho e, a partir daquele dia, ajudar o próprio pai. Quando mudou para Florianópolis, aumentou ainda mais seus rendimentos. A cidade, na época, era um canteiro de obras e, com talento e esforço, foi adquirindo muitos clientes. Em novo pedido de apoio do pai, convenceu a esposa a deixá-lo morar com eles por uns tempos. Na verdade, por tempo indeterminado, até que arrumasse um emprego e pudesse pagar um aluguel. Essa atitude pode ser considerada o seu maior erro, só que – por se tratar de um acontecimento passado – prefere acreditar na inevitabilidade do destino. Se é que essa palavra existe... Nos primeiros dias de “visita”, a prepotência daquele homem chamou a atenção. Nos dias seguintes, a cara de pau foi o que mais incomodou. Nos outros, a intromissão. E nesse cotidiano foi aprimorando os dons da paciência e da solidariedade, além de seu instinto paterno – pois era como de fato se sentia. Até que veio o grande castigo. Afinal, “toda boa ação exige uma punição”. Tinha ouvido essa frase em algum filme e nunca alguma coisa lhe pareceu tão real. Só que, dessa vez, resolveu não aceitar quieto; decidiu se vingar. Quem o alertou foi um amigo: “seu pai estava dando em cima da sua esposa”. Apesar de ter considerado absurdo, achou melhor perguntar para a mulher. Ela disfarçou, tentou encobrir, porém, acabou abrindo o jogo. O assédio existia e estava cada dia mais forte. Toda a mágoa acumulada veio à tona. Foi à forra. Combinou com a esposa um flagrante. Escondeu-se na sala e pediu que a mulher dissesse ao pai que ele havia saído de casa sem dar explicações. Quando o malfadado senhor chegou na residência e lhe “presenteou” com aquela atitude, experimentou a pior sensação da sua vida. Vomitou para aquele homem tudo o que doía e estava engasgado há mais de duas décadas. Foram palavras duras e sinceras que lhe supriram de uma energia mais forte do que a vontade de matá-lo. Por sua vez, o único argumento do pai foi: “não suportava o fato do filho ter uma mulher maravilhosa e, mesmo assim, manter um relacionamento extraconjugal”. (Fato real, o qual a mulher sabia e por algum motivo tolerava). A história com a esposa durou mais quatro anos de convívio diário na mesma casa, com direito a mais um filho, e uma tentativa até boa de amizade que perdura até os dias de hoje. A história com o pai, no entanto, parecia ter acabado naquele dia, mas a informação de que um senhor arrogante, doente e muito pobre está sucumbindo pelas ruas, o fez comprar uma passagem para Minas Gerais. |