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Em frente ao palco

Segunda, 2 de Julho de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Eu não queria ir, mas tinha que cumprir o protocolo. Às vezes você tem que fazer valer aquela velha e enigmática máxima: "amigo é pra essas coisas". Não é fácil ter um amigo ator, ou, melhor dizendo, não é fácil ter um amigo ator vagabundo - ser amigo do Robert De Niro, ou mesmo do Rodrigo Santoro deve ser bem melhor. Ter um amigo ator é ser convidado frequentemente para sua atual montagem mambembe-pretensiosa chatíssima com 3 horas de duração e com um homem pelado sujo de "sangue" feito de catchup de cantina escolar. Beleza, você sempre pode dar uma desculpa daquelas "Quinta não dá, tenho bar mitzvah do meu hamster" ou "Putz, exatamente no dia do conservatório de cello da minha sobrinha", mas um dia você fica sem escapatória, e foi exatamente que aconteceu comigo.

O cartaz pintado por um letrista ou cartazista já falava muito sobre a qualidade da peça: "Companhia de Teatro Mar Qui Sixtas apresenta: Tragédia a la grega - Uma história brasileira". A essa altura meu cérebro já tinha processado a meia volta, mas foi interrompido por uma voz conhecida e muito empolgada. Era meu amigo feliz da vida que imediatamente me fez entrar junto com ele cumprimentando todos os funcionários do teatro - que, diga-se de passagem, parecia o teatro da escola onde interpretei de forma visceral e definitiva uma pedra na peça "Ludmila".

Sento atrás o suficiente pra não ficar na última fileira, a gente nunca sabe se vão pegar alguém da platéia para participar. E quando a última campainha toca meu coração bate mais forte. Sempre que o teatro se silencia fico com uma vontade de rir. O cenário tem as mesmas nuances de beleza dos cenários do Comando Maluco do Dedé Santana. Finalmente um ator aperece no palco vestido de toga e barba falsa simulando Sócrates, Ésquilo ou qualquer um da antiguidade grega andando de um lado para o outro feito um maluco. De repente ele rompe o silêncio e começa a recitar um texto todo falado em segunda pessoa usando e abusando de toda mesóclise que passava na frente. Esse era o prenúncio de que minhas próximas horas seriam bem demoradas. E tem mais, teatro não é como o cinema, em que você levanta, vai embora e ninguém lá na Califórnia fica chateado com você. Se você levanta durante uma peça o ator percebe, e o pior, ele pode pedir para você ficar.

Foi então que me enterrei de vez naquela cadeira e passei os momentos mais entediantes da minha vida, vendo pessoas vestidas com lençóis falando num dialeto que não criava nenhuma significação para mim. A partir de agora, vou carregar comigo outra máxima: "Amigos, amigos, négocios a parte." Nunca vi um advogado encher o saco dos amigos para eles irem ao tribunal.



a gerência agradece, Ricardo Dolla | 2 comentários