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Em busca de uma taverna

Quinta, 15 de Novembro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor


Eram seis horas da manhã. O português Manuelzito acabara de chegar à Colômbia e caminhava pelas ruas de Bogotá a procura de sofisticação. Pelo menos era o que ele havia lido no Jornal Mundo Lusíada, quando buscava um lugar para curtir suas férias: “Bogotá é a cidade perfeita para quem procura sofisticação.”

“É prá lá que eu vou”, pensou Manuelzito, sofisticado por natureza.

Pelo mapa que imprimiu no site da Agência Lusa, ele estava a sete quilômetros do bairro da Candelária, famoso pelas aconchegantes tavernas.

“Ah, as tavernas, é prá lá que eu vou.”

O que ele não havia se dado conta era que em Bogotá era domingo de manhã e, por isso, não tinha uma viva alma nas ‘calles’. O táxi que o havia deixado ali, a esta altura, já estava bem longe.

De repente, Manuelzito começou a sentir um mal-estar por causa da altitude e se lembrou das recomendações do taxista: “se você se sentir mal, procure uma casa de chá e peça um de coca. É tiro e queda.”

Ele pegou novamente o mapa e decidiu caminhar em direção ao oriente. Até que encontrou sentada na calçada uma velha curandeira que preparava algo que parecia um chá.

- Por favor, senhora, isso aí é chá de coca?

- Sí.

- A senhora pode me servir um pouco?

- São 10 dólares.

- 10 dólares por um copo de chá? As coisas na Colômbia são ‘muy caras’.

- 10 dólares ou nada de chá.

Manuelzito pegou seu copo de chá e continuou caminhando para o oriente até que sentiu tudo rodar e desmaiou.

Quando acordou, ele percebeu que estava dentro de um ônibus barulhento e a primeira imagem que viu foi a de um cara dentuço tocando pandeiro totalmente fora do ritmo. O dentuço percebeu que o português estava acordando e puxou um samba em sua homenagem. Os outros passageiros acompanharam: “Agora, tô sozinho precisando de você, oh de você. E você não tá por perto pra poder me ajudar ...”

Ainda um pouco tonto, Manuelzito teve a impressão de que conhecia aquele grupo de algum lugar até que resolveu conversar com um rapaz que estava bem animado e usava uma corrente de ouro no pescoço.

- Acho que te conheço de algum lugar, mas não me lembro de onde.

- Pode ser da televisão.

- Você é artista?

- Me chamam de Rei das Pedaladas.

- Já sei, você é ciclista?

- Mais ou menos, sou jogador de futebol.

- Puxa vida! Você é o Pelé?

- Hahaha. O Pelé tem 67 anos e eu 23. Meu nome é Róbson, muito prazer.

- Pra onde vocês estão indo?

- Vamos treinar e depois almoçar numa taverna, antes do grande jogo de hoje à tarde.

- Taverna? Opa, eu tava procurando uma antes de apagar com o chá de coca que uma velha curandeira me deu.

- O chá de coca é um perigo, eu não tomo essas porcarias. Então, vem com a gente?

- Claro!

Manuelzito seguiu com o grupo e almoçou numa taverna. Naquele 14 de outubro, enquanto o Brasil não tinha engolido muito bem o empate de 0 a 0 contra a seleção da Colômbia, Manuelzito era o único que não tinha do que reclamar, encheu a pança com cozidos, embutidos, carneiro assado e, de quebra, sambou muito na companhia de uma moça, que lhe foi apresentada pelo simpático dentuço.



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