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El Castor – O dono da América
El Castor – O dono da América
Quinta, 4 de Outubro de 2007
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
Aconselhada por Jajá, guru da guatemalteca Rigoberta e garçom de um boteco sujo, ela decidiu picar a mula do Brasil. A moça o considerava seu guru, porque achava que um cara que saiu de Sergipe, na década de 80, e chegou a São Paulo pedindo carona a caminhoneiros só podia ser um bom conselheiro. Já tinha rolado de tudo com ele. Até furado com ponta de faca, após roubar algumas cabritas e brigar com prostitutas de beira de estrada, ele tinha sido.
Então, Jajá fez um esquema com alguns trutas para embarcar Rigoberta para o México via Guiana. A única coisa que ela sabia era que demoraria 14 dias só para sair do Brasil. Até aí tudo bem. As únicas bagagens de Rigoberta eram uma bengala e um cachimbo. Numa estação de trem em Rio Grande da Serra, o garçom lhe deu todas as coordenadas. Pediu pra que procurasse um cara conhecido como Brinquinho, que viajaria com ela até o Acre, depois para Roraima, e facilitaria a sua entrada na Guiana.
Mas o esquema não saiu dentro dos conformes. Ao entrarem na Guiana, Brinquinho e Rigoberta foram presos por Oficiais da Imigração, ficando à disposição para esclarecimentos sobre os seus objetivos com a viagem. Ao saber que ficariam retidos, Zé do Rabo, um comparsa de Brinquinho, tentou lhes passar algumas orientações por rádio amador. Mas o oficial tomou o aparelho de Brinquinho e impediu qualquer tipo de comunicação.
Indignada, Rigoberta perguntou para o oficial sobre o motivo da retenção e o cara disse que desconfiavam que os dois estivessem com a intenção de fixar residência no país.
“Imagina se eu iria morar nessa espelunca”, pensou a guatemalteca.
Os dois passaram por humilhantes revistas feitas por oficiais guianeses. Depois de cinco horas de interrogatório, sem pistas concretas (a única coisa que eles encontraram foi uma cartinha de Jajá com algumas orientações, que os oficiais encaminharam a um tradutor para checar as informações), o oficial os soltou e os conduziu até o Ferry Boat, de onde seguiram até a Nicaragua. No porto, tentaram entrar em contato, por telefone, com Zé do Rabo, mas ele não foi localizado pela recepção do hotel, onde haviam combinado de se encontrarem.
Em seguida, tentaram ligar para Jajá, mas não conseguiram concluir a ligação. Resolveram seguir por conta própria até Honduras. Como eles estavam sem grana, já que Zé do Rabo era o tesoureiro do esquema, conseguiram um burrico em troca da bengala de Rigoberta. Cruzaram tranquilamente a fronteira com a Guatemala, já que dois oficiais eram ex-namorados da guatemalteca.
Na verdade, eles quase barraram a entrada de Brinquinho no país por ciúme da moça. Mas Rigoberta explicou que nem conhecia direito aquela figura mal ajambrada e, depois de alguns beijinhos de Rigoberta, eles liberaram.
A dupla cruzou a Guatemala com a ajuda de alguns índios que lhe emprestaram dois cavalos, porque o burrico foi acometido pela malária durante a viagem. Na fronteira com o México mais um problema, “El Castor”, o rigoroso chefe da imigração mexicana baixou a ficha dos dois e viu que eles tinham sido “presos” na Guiana. Ainda tentou “ganhar” alguns pesos mexicanos em cima da dupla, mas a única coisa que eles tinham pra oferecer era um cachimbo.
Ofendido, “El Castor” não só os deportou como os levou pessoalmente ao boteco onde trabalhava Jajá, sacou uma arma e atirou na perna do pobre garçom sergipano.
Rigoberta foi cobrar satisfação de Jajá, mas “El Castor” nem deixou que o garçom se pronunciasse e disse numa mistura de espanhol com português:
“El safado robio mis dos mujeres e mis cuatro amantes e yo jamás voy a te perdoar. Ningun de sus amicos van a entrar en mi pais y en ninguno pais amico.”
Puta da vida com aquela palhaçada, ela pegou a arma, deu um fim em Brinquinho, El Castor e Jajá e foi procurar abrigo no Oriente Médio, com o seu amigo Bin Bin.
PS: Esta história foi inspirada em fatos reais.
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