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Do céu, uma bela cidade*

Segunda, 9 de Julho de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Tal evento incomum ocorreu neste final de semana, quando, claro, por razões profissionais, deixei a cidade.

De cara, me dei por satisfeito por não enfrentar um aeroporto caótico, como os telejornais vêm mostrando rotineiramente há sei-lá-quanto-tempo.

No saguão, a espera transformada em pensamentos divertidos, ao me deparar com as "celebridades" que sempre transitam por ali:

– Cara, como este músico está velho, acabou de lançar um DVD e, nas fotos, parece ter uns 20 anos a menos – penso sozinho.

– Olha, os gêmeos profissionais. Será que ao preencher algum formulário, escrevem ’gêmeo’ no espaço reservado à ocupação? – me questiono.

– Porra, aquela dali não é o mulherão da novela? Cara, merece os parabéns. Não ela, mas a equipe de maquiadores da emissora – continuo nos meus delírios.

Chega a hora do embarque, deixo as celebridades e pseudos em paz e sigo.

Nunca entendi o medo de avião, afinal, para mim, está na cara que aquela porra sempre vai cair. Acho até que foi projetado só para isso.

Por isso, sempre peço a janela. Jamais vou perder a oportunidade de ver a minha última queda de camarote. Sério, quando estiverem num avião e ele despencar, se ouvirem um cara gargalhando e batendo palmas, podem saber que sou eu.

Desta vez, aliás, tentava apenas recordar quem estaria de plantão no jornal durante o sábado e domingo e que, conseqüentemente, se ferraria na cobertura, caso o avião caísse, decepando alguns arranha-céus da metrópole, pouco antes de se transformar em cometa.

Mas tudo isso para filosofar que São Paulo, a uma boa distância e do alto, é até bonita. Aqueles quadradinhos e quadradões alinhados, os caminhões e carrinhos-formiga se arrastando, tudo é bem legal, alguns mil-metros acima.

Fui durante o dia, voltei à noite, o que me permitiu comparar as cores e formas, ou a ausência disso tudo, da metrópole vista do alto.

Sem o sol, a cidade se vira. Um universo de luzes a se perder de vista faz dela um belo espetáculo.

Como o final de semana foi pesado, encosto a cabeça e quase durmo. Mas meu sono mal se concretiza e percebo que o avião dá uma forte trepidada. Imaginei, sorrindo, que o talvez o final de semana também tivesse sido pesado para o piloto e ele tivesse optado por uma soneca também.

Mas um grito agudo em coro, me arranca deste pensamento, pois agora o avião mergulha em direção à cidade. O cara do meu lado começa a rezar, mas a maioria apenas berra desesperadamente.

Eu só olho para fora, esperando o choque com os espigões de concreto e nosso final bola de fogo. Não demora e ele chega. Morro aplaudindo e gargalhando, sem lembrar quem se ferrou no jornal, e com a imagem das luzinhas infindáveis como uma última memória...

* texto de ficção escrito em 9/07/2007, nove dias antes da tragédia real com o vôo JJ 3054 da TAM, em Congonhas.


escrevi e saí correndo: Fábio Inverídico | Dois comentários