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Desabafo de Deus
Desabafo de Deus
Quarta, 29 de Agosto de 2007
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
No início não havia nada, logo, achei todo esse vazio muito tedioso e resolvi fazer alguma coisa. Não que eu tivesse realmente que fazer algo, mas coçar o saco em frente às nebulosas de programação duvidosa já estava chato, e achei que seria mais útil e reconhecido se usasse meus dons divinos.
Aí eu desenhei uma grande explosão - na verdade foi um acontecimento que intitulei de flatulência cósmica, e estava guardada há muitos minutos – de onde surgiram poeiras, pedaços de asteróides, planetas, estrelas, sóis... Logo a explosão foi se expandindo e deu origem a um vácuo recheado de pequenos pontos luminosos.
Já estava satisfeito, convencido de que minha criação era a mais original dos últimos milênios (terrestres), até que minha atenção foi desviada a um pequeno planetinha azul, simpático, tranqüilo... Já havia criado vida em diversos outros planetas, mas neste resolvi caprichar e criar uma agendinha de organização. Faria tudo em sete dias para que os seres nascidos lá fossem decentes, corretos, organizados e felizes.
No primeiro dia criei plantas, água, montanhas, ar, vento... Deixei tudo pronto para manifestar a vida e esta seguir automaticamente as linhas da evolução. Deu um puta trabalho, mas já no segundo dia, tratei de criar vida inteligente, coloquei bactérias, fungos, insetos... E as coisas começaram a se multiplicar por si próprias. No terceiro dia aumentei a diversidade de vida, criei aves, mamíferos, répteis e peixes. Foi aí que as coisas começaram a sair da programação, pois esses estúpidos animais queriam se multiplicar de modo prazeroso. Me encheram tanto as paciências, que instituí o sexo. Foi aí que tudo fodeu!
No quarto dia o planetinha estava infestado de putaria, e o bicho que me chamou mais a atenção foi um tal de macaco, que saía por tudo quanto é canto trepando com qualquer orifício que se movia. Tive que criar leis neste momento.
No quinto dia a revolta era geral. Todos queriam liberdade sexual, já lidavam com superpopulação, a festa estava transformada em tumulto e precisei intervir feio. Agora teriam que comer para sobreviver, controlar a natalidade, morreriam depois de algumas décadas e só rolaria sexo entre a mesma espécie. Pronto, os macacos me tiraram do sério com esta última lei! Gritei alto e me exaltei, tanto que alguns grandes répteis que criei não resistiram a esta minha fúria e foram dizimados.Até foi bom, pois cagavam demais mesmo.
No sexto dia eu estava só o pó. As leis eram desrespeitadas, os macacos viraram o que conhecemos hoje como homem, faziam a maior sujeira, comiam tudo e todos, a mulherada apoiava a zona e tudo saiu do esquema. Até pensei em acabar de vez com esse planetinha de merda cheio de bagunça. Mas sabe de uma coisa? Desencanei e, no dia seguinte, o tal sétimo dia, entreguei os pontos a esse bando de filha da puta. Fui descansar, pois coçar o saco em frente às nebulosas era muito mais produtivo. E o planeta? Ah, sei lá, eles que se virem, mas sei que não vai durar mais muito tempo não. Até lá, deixei de presente para meu amigo Diabo. E parece até que ele gostou da brincadeira...
(baseado em conto de Renato Zanuto).
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