Blogs do Morfina
Menu Lateral
Perticipe do Morfina Sobre o Site Fala com a gente Acesso o arquivo Participe do Morfina
Home > > Dachau, anos noventa e o caralho

Dachau, anos noventa e o caralho

Sexta, 23 de Março de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Dachau é uma pequena cidade próxima a Munique. Minúscula, para ser exato. Seria insignificante, não fosse a única coisa grande que já houve por lá: o maior campo de concentração da Alemanha – Auschwitz, ao contrário do que muitos pensam, era na Polônia. Mesmo sendo uma grande atração (e aqui a palavra está a léguas de diversão), não dá para ir ao campo mais de uma vez. Nem que você esteja na linhagem direta de Belzebu (ou Adolf Hitler). E tirando isso, não há o que se fazer por lá.

Hospedados num albergue local devido ao esgotamento das vagas na metrópole vizinha, eu e meus amigos, companheiros na Copa do Mundo, comprovamos que o nome da cidadezinha deve ser um vocábulo alemão para tédio. Como, embora próxima, Munique não era exatamente próxima, à noite precisávamos fazer alguma coisa para nos alegrar em Dachau mesmo. Não sendo pessoas sofisticadas e exigentes, algumas cervejas dariam conta do recado (sempre dão). Estando na Bavária, região mundialmente famosa pelas loiras (não muito) geladas, não seria difícil encontrar um bar. Não seria, caso nós estivéssemos em qualquer outra cidade: em Dachau, só existia o campo de concentração. E, mesmo que servissem uma cervejota por lá, acho que teríamos que arranjar outro passatempo.

Tudo parecia perdido, quando abriu-se a porta da esperança. Ou a de um bar, o que dá no mesmo. Aí, revelou-se um pequeno e aconchegante pub, com centenas de bandeirinhas de vários países, lembrando o torneio mundial, e enormes objetos fálicos, a trazer o clima de... Enormes objetos fálicos? No Brasil, só existe um tipo de lugar que teria uma decoração dessas. Intermináveis segundos de apreensão sucederam a visão daquelas gigantescas picas de madeira. Porém, a sede superou o medo pela dignidade, o primeiro de nós entrou e pediu “ein bier bitte“. O espanto foi geral: não havia afetação nenhuma no cara que serviu a breja, mal vestido demais para ser gay. Aliás, nenhum dos freqüentadores dava a menor pinta de ser chegado a, hum, pinto. Aproximaram-se e tentaram puxar conversa, sim, mas só por estarmos todos vestidos com as cores brasileiras, alvo invariável de curiosidade e simpatia. Tomamos uma, duas, três, várias, e – ufa! – ninguém acordou com dores retais no dia seguinte. Por isso – e pela falta de concorrentes –, elegemos o Bar do Pinto, como passamos a chamá-lo, como nosso bar em Dachau.

Nesse bar, aconteceu um dos momentos mais legais da viagem. Seria mais uma de nossas noites alcoólicas, divertidas como todas, não fosse a trilha sonora: nos auto-falantes a rádio local mandou ver uma seleção de fazer gosto, com “o melhor dos anos 90” – deve ter sido o que disse o indecifrável locutor. Considerando pra cacete uns aos outros, lembramos os tempos em que tínhamos mais cabelo e menos pança, cantando “Breakfast At Tiffany’s”, “Free Falling”. Foi bem bacana.

Mas no Brasil uma cena assim seria impossível. Não que não enchamos a cara, não que não cantemos juntos (pobres vizinhos) quando fazemos isso. O problema são as músicas noventistas. E não que as rádios não as toquem: é só o que elas tocam. Por terem parado nos nossos tempos de faculdade, as transmissoras nacionais impossibilitam o flash-back dos noventa, o revival do momento na Europa. Se as transmissoras nacionais percebessem que os anos 90 já acabaram – pelas minhas contas, há quase sete anos – e parassem de executar o hit parade da época, poderíamos sentir saudade, e se justificaria a nostalgia aos 90. Afinal, não há sentido em reviver algo que sequer foi embora. A culpa disso também é dos ouvintes, cujo gosto musical também parou na década passada – ou retrasada ou re-retrasada. (Quem não tem um amigo que diz que o rock morreu nos anos 70?)

Pensando bem, mesmo se as estações brasileiras fossem decentes e o revival dos tempos do grunge rolasse como em outras plagas, seria impossível repetir no Brasil o ocorrido em Dachau. Que eu saiba, aqui não existe nenhum bar com caralhos decorativos onde se possa beber e cantar sem temer pelo cu.

Aquela coisa toda por Leandro Leal | 9 descendo o pau