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Coração vs Cérebro

Sábado, 31 de Março de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

- Você gosta não. Você adora estar sozinho.


- Eu não diria isso com tanta certeza.


- Como não? Olha bem para você.


- Olhar pra mim? Isso é tudo o que mais tenho feito. E não tenho essa convicção. Ao contrário...


- Veja a sua vida. Analise com cuidado, está mais do que claro. Está evidente.


- Como assim?


- Observe as escolhas que foram feitas.


- Tá, e daí?


- Você optou. A vida é feita de escolhas e foi você, sozinho, quem optou.


- Sozinho não. Pera lá, você estava comigo. Foi a base das decisões.


- Não é bem assim. Eu expus os diversos lados da situação. Mostrei o que era bom e o que não era. Ponderei. A decisão foi sua.


- Eu não conhecia o outro lado. Tinha de vivenciar. E saber o que não quero não significa que eu saiba o que quero. Disso, inclusive, acho que você entende bem.


- É mas quem assumiu o risco foi você. Sozinho. Por mim, eu acho que nem teria feito dessa maneira.


- Fácil falar agora, pelo menos nesse momento. Só que a dor de um ou dois dias não significa o fracasso da escolha. Ainda estou confiante.


- Por isso eu reafirmo que a escolha foi e sempre será exclusivamente sua. Eu alertei que haveria dor.


- E por acaso você está aqui só pra me prevenir da dor? Achei que servia pra mais. Pensei que me ajudasse a buscar felicidade.


- Vamos esclarecer. Primeiro que quem pensa aqui sou eu. Você, pensar, já está errado. Acho que estou te influenciando mal. Segundo, eu auxiliio sim nas suas buscas. Só que cada um nas suas funções. Entre nós sempre foi assim. Eu avalio e você age. Sozinho.


- Não, não e não. Sozinho é o caralho.


- Meu caro, o caralho é outra história. Não vamos entrar nesse âmbito que complicará ainda mais o entendimento.


- Putz, você tem razão. Pra variar... Eu quis dizer que você me apoiou na decisão. Questionou, idealizou, ponderou. Enfim, me martelou a tal ponto que eu decidi fazer alguma coisa pra te ajudar...


- Ah viu. “Decidi”. Foi você quem disse isso. Usou essa palavra: “De-ci-di”. Você decidiu. Então não me culpe. Assuma as suas atitudes.


- Não estou culpando. So quero dividir responsabilidades. Você entende isso?


- Nossa, dessa vez você me surpreendeu. Dividir responsabilidades... Essa frase também deveria ser minha e não sua.


- Pois é. Acho que você tem razão. Sou eu que decido tudo mesmo. Até quem será o dono de cada frase nossa. No fundo, acho que nunca confiei 100% na sua capacidade. Aliás, quem é você mesmo?


- Sinceramente, você me irrita, me complica, me confunde... Já não estou certo de quem eu sou exatamente. E você?    



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