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Coração de Estudante

Segunda, 31 de Dezembro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Diogo já havia ligado para aquele número inúmeras vezes. Uma questão de hábito, ele pensava, mas descobriria muito cedo o quão estava errado. Não era hábito. Não. Era amor.

Ela não havia anotado o número dele na agenda, mas sabia sempre quando era ele ligando. Parecia que seu celular tocava diferente quando era ele. Não era, claro, mas ela sentia assim. Ele ligava de números bastante diferentes, às vezes do seu próprio celular, às vezes do escritório, raramente de casa. Questão de mulher e filhos, que ele já não cuidava mais. Não é uma história incomum. Nos dias de hoje, quase um hábito.

E quando sabia que era ele ligando, Audrey atendia como Bruna e aveludava a voz, pensando em cantoras de jazz e blues.

Às primeiras vezes, ela buscara atender ao cliente com prontidão, mas aos poucos percebera que não era preciso ser tão disponível. Aliás, melhor seria que fizesse um charme e o deixasse esperar um pouco. Diogo havia prestado atenção especial ao anúncio dela no jornal. “Universitária” era o que ele queria, “universitária” ela lhe entregava.

- Oi, Bruna, como está a vida?

- Oi, Diogo! Que saudades. Ah, final de semestre você sabe como é, cheia de provas e trabalhos para entregar.

- Que bom, imagino que você seja uma excelente aluna, estuda tanto...

- Você sabe que eu sou uma aluna má... Muito má...

- Hahahaha, eu sei sim, querida... Podemos nos encontrar na quinta?

Nessa hora ela jogava a isca.

- Quinta não dá, tenho prova pela manhã e o pessoal da classe está combinando um churrasco à tarde. Mas na sexta feira eu posso.

- Ótimo! – Ele mordia o anzol – Na sexta você pode me contar com detalhes como foi esse churrasco.

Esparramada na cama, agüentando o peso depravado do homem, ela mirabolava fantasias sobre o tal do churrasco. Começava contando quem estava lá, suas amigas e seus amigos, dizia nomes e descrevia corpos perfeitos e não se esquecia de ter tido um caso com alguns deles. As amigas inclusive.

- Lembra aquele decote que fica tão bem na Luana? Pois é, ela estava usando de novo. Aí eu fiquei louca, né?

E divagava, explorava sentimentos, se colocava em situações tórridas e fazia o homem gozar descrevendo como havia sido pega em flagrante por três dos caras de sua classe enquanto transava com a Luana no banheiro. Enquanto ele fremia e lambuzava-se, ela fazia anotações mentais para não se esquecer dos nomes das histórias. Como de hábito.

Quando Diogo percebeu que seu hábito era amor ele convidou Bruna para jantar. Ela estranhou a gentileza, mas aceitou. Não era de hábito. Ela desceu do táxi inibida no restaurante chique e já começou a contar com seu sorriso mais inocente sobre como um dos professores da faculdade havia pegado nos seus peitos depois da aula e estava quase chegando às vias de fato quando foi interrompida. Por Diogo.

- Bruna, eu me separei da minha mulher.

Ela percebeu muito rápido que aquilo tinha a ver com ela sim. Ele trazia presentes. Jóias lindas e o desejo de viver em plenitude aquele período difícil da sua própria vida no qual ele havia se debruçado sobre livros, estágio e trabalho e não havia curtido a farra que ela estava curtindo. Ele havia sustentado mulher e filhos durante a faculdade.

Bruna bambeou e Audrey pela primeira vez não soube o que fazer. Balbuciou, envergonhou-se e finalmente, fugiu do restaurante, sem dar maiores satisfações, porém incapaz de colocar o cliente em seu devido lugar.

No dia seguinte era ele quem ligava cedo. Insistiu em vê-la. Bruna assumiu o comando e inventou todas as provas e aulas quantas foram possíveis, mas Diogo não queria saber. Perder o cliente era impossível, assumir o relacionamento, ainda pior. Cedeu e breve Diogo adentrava o apartamento pequeno com flores na mão e olhar de bobo.

Não foram necessárias muitas palavras. Ele não encontrou vestígio de surubas universitárias. Não encontrou livros, não encontrou mural de fotos, não encontrou companheira de república, não encontrou cervejas na geladeira, vodka, provas, trabalhos, cadernos nada. Encontrou Rafaela dormindo pacificamente no seu berço, bem alimentada, linda e saudável, graças ao dedicado trabalho da mãe zelosa e da senhora vizinha, sempre disponível para a baby-sitter.

- Mas, Bruna, e a sua faculdade?

- Na verdade – ela olhava para o chão – eu só fiz uns 4 meses de faculdade, alguns anos atrás. Eu não tenho 19 anos. Tenho 27.

E como ele nada dizia, perplexo, ela mordeu os lábios, sabendo o estrago que causaria e emendou:

- E o meu nome é Audrey.

Ele voltou pelo caminho que viera em direção ao divórcio que se consumava sem reclamar, sem xingar, sem brigar.

Pelo jeito, o amor acabara. Como de hábito.

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Feliz 2008, cambada! Obrigado pelos comentários, é o que me faz me sentir mais motivado para esculpir quinzenalmente um bom texto. Estou aberto a sugestões, críticas e reclamações. Dêem idéias, participem, dêem palpites, debatam. Vocês fazem valer muito a pena! Obrigado por não me deixarem aqui falando sozinho.



coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 2 sublimes almas